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O MUNDO É FEITO DE OLHOS

       O mundo é repleto de olhos. Como relâmpagos em noite escura, alguns soltam flashes esparsos em cada mirada. Outros, em escuridão distraída, nada fazem senão apenas existir como existem pedras, folhas mortas e seres automatizados. Ainda assim, são olhos. Não importa muito se olham, o que olham ou como olham. Olhos: é disso que é feito o mundo.
        Há os que miram mundo afora e, assim dirigidos para fora, nada enxergam por dentro. Outros, mais atentos, miram profunda e constantemente, para dentro de si mesmos. E assim olhando, percebem o mundo inteiro. E nesta mirada não consentida, carregam a vida e as dores de todos, conhecendo-as se suas fossem.
Olhos há que não miram parte alguma. Ficam ali, parados, anestesiados, esperando a hora de fechar-se e com eles fechar a cortina do tempo e da vida. De outra parte, há olhos que matam. É da sua natureza serem assim, assassinos a sangue frio e sem premeditação. Apenas olham e voilà: mais um abatido. Não houve intenção, não houve maldade: apenas são assim, matadores.
       Os habitantes dos olhos navegam por rios diferentes entre si, ou por mares bravios, ou ainda, por lagos calmíssimos. Atravessam abismos imensos, desbravam selvas inimagináveis, lutam com dragões ou simplesmente assistem o filme alheio, pensando que poderia ser o seu.
        Já mergulhei fundo nos meus em busca de muitas respostas. Mas os meus, infelizmente não são olhos de respostas. São olhos de pergunta. Respondem uma com outra que me levam a outras milhares. Talvez se me vá deles encontre as respostas. Talvez, quando parta.
        Mas mesmo partindo, todos eles certamente sentem saudade daquilo que os habitou por algum tempo, curto ou longo. Mas que sentem falta, isto é fato. Os olhos habituam-se, acomodam-se sempre: seja à cegueira e à treva completa ou à luz que inunda. E o fato é que, ao deixá-las, uma ou outra, sentem falta.
       Mas isso é assunto de amor. E não falarei de amor hoje, porque não teria os olhos para tanta diversidade. Deixemos para amanhã.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 04/10/2005
Código do texto: T56580

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai