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A GATA E O CHARUTINHO

                                                           
A Gata e o Charutinho

Como qualquer turista, lá estava eu na primeira capital do Brasil, a velha e linda Salvador.  
Cidade mística e de grande encantamento pela teimosia dos baianos em preservar o estilo barroco de suas antigas construções. Cidade dos contrastes entre o antigo e o moderno.
Lá para o lado do Centro, Farol da Barra, Rio Vermelho, Amaralina, o Teatro Castro Alves, hotéis moderníssimo, o Clube Português. Mercado Modelo, Mercado São Joaquim, igrejas por todos os cantos, o armazém depósito de escravos, hoje restaurante moderno de comidas típicas, o que me vem à mente da Cidade Baixa.
O meu ponto de repouso na cidade, o Hotel Convento do Carmo, velho convento de freiras transformado em hotel de 5 estrelas. Situado na Ladeira do Pelourinho, local de prostituição e malandragem é prédio de linhas nobres.
A oportunidade de poder usufruir o ambiente por alguns dias em Salvador me fez reportar a época do convento das religiosas. Nas alas da edificação, longos corredores com o piso em tábuas corridas, enumeravam as celas de clausura, uma após outra. As portas pesadas, rústicas com puxadores e batentes em ferro, trancavam as belas noviças e castas damas. Transformaram assim, as ditas celas em apartamentos luxuosos, mantendo todas as suas características. Paredes sem níveis, janelas estreitas, pisos em tábua corrida e encerados com tal brilho que refletia a beleza íntima das enclausuradas e hoje, das belas hóspedes. O mobiliário foi mantido. Cama larga e alta com degraus, criado mudo e a  "conversadeira" (peça única com duas cadeiras geminadas). O mais, tudo de um luxuoso apartamento de hotel. Frigo Bar, ar condicionado, som, tv...
Das janelas do lado leste do convento hotel, vista para a Cidade Baixa, com predominância para o Pelourinho. A bica central, o calçamento "pé de moleque", prédios encarquilhados, mulheres charmosas com ar de abandonadas ditas  mulheres de vida fácil, transavam pela praça. Arruelas com as casas em estilo barroco, umas sem pinturas, pintadas ou repintadas nas corres que ia do rosa choque ao azul, umidade por toda à parte, xixi escorrendo pelas paredes maltratadas, este o quadro visto das janelas do convento.
Como qualquer visitante, procurei conhecer tudo sobre a cidade...
A viagem pelo Elevador Lacerda (alt. 80 metros), ligando a Cidade Alta à Cidade Baixa, dava para visualizar toda a Baia de Todos os Santos, com seus saveiros e embarcações diversas, testemunhas muda da luta com o invasor holandês no Nordeste do Brasil.
À frente do elevador atentava eu a morena jambo que passava bamboleando os quadris largos. Um toque no meu braço me fez despertar...
- Moço! – Moço!
Era o menino mascate, dono do tabuleiro com cigarros e charutos.
Procurando imitar o sotaque baiano, sotaque cantado, para não denunciar o lado turista, o garoto sacana não se deixou enganar...
- Moço! O Senhor não é daqui!  –  Não quer levar de Salvador umas  lembrancinhas?    -  Leve uns charutinhos...
Insistente o menino repetiu:
 - É barato, leve!
  - Tá bem menino! – Eu levo! – Me dá três charutinhos daqueles ali.  Falei
 - Não! Disse o jovem mascate.
 - Daqueles não! – Vai levar destes...
  - Porque? Indaguei! – São melhores e mais caros?
 -  Não senhor! – Vai levar destes porque foram feitos em pernas de moça  bonita!
Não discuti. Peguei a mercadoria e ao chegar ao hotel,  corri a contar o fato ao gerente e perguntei o que significava ¨feito em perna de moça bonita “. Sorrindo, o gerente sem procurar me ofender, respondeu”:
- A indústria do fumo na Bahia ainda é artesanal. Assim, os charutos produzidos são feitos com as folhas do fumo sendo enroladas nas coxas das moças.  "Feito em pernas de moça bonita" foi o marketing usado pelo mascate para lhe provocar...". 
Desnecessário dizer que voltei para comprar mais charutinhos...
O cheiro do tabaco misturado ao perfume da gata de coxas bronzeadas dá ao produto fabricado o nome de charutinho.
Loa aos produtos baianos: A GATA E O CHARUTINHO!

                                                                                               
                                                                                                                                                                                                                   

 

Tino
Enviado por Tino em 05/10/2005
Código do texto: T56805
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Sobre o autor
Tino
Fortaleza - Ceará - Brasil, 89 anos
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