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Felicidade Efêmera

Qual o objetivo da vida? Muitos, e muitos mesmo, respondem que é ser feliz. Mesmo com o conceito de felicidade variando estrondosamente entre as pessoas. Não querendo me aprofundar muito no quesito filosófico da coisa, pois desde que temos filósofos eles discutem sobre a felicidade, gostaria de por uma questão em pauta, a insatisfação.

O rapaz põe a camisa nova que comprou, descolada, com uma estampa maneirosa e pega aquela calca jeans se perfuma e vai para a noitada. Enquanto isso a mocinha escolhe o vestido com melhor caimento e aquele que combina com a sandália que é um arraso, se maquia e vai pra night.

O que os dois querem? Provavelmente podem dizer dezenas de coisas diferentes, mas duvido muito que o subproduto mais imediato dessas coisas não seja se divertir. As pessoas saem para se divertir.

Enquanto um quer beber, zoar e pegar alguma(s) gata(s) a outra quer sair com as amigas, dançar e se pintar um(ns) gatinho(s) sair por cima da noite. A diversão está ali pronta para se aproveitada. Mas...

Vamos analisar o que acontece. Enquanto estão se arrumando, estão querendo o melhor para se dar bem quando a boate chegar. Enquanto estão bebendo estão querendo que a noite acabe melhor do que está. Enquanto estão ficando com uma, duas ou mais pessoas estão esperando a noite acabar para contabilizar os lucros e ficar feliz. Quando a noite acaba esperam contar aos amigos os feitos da noite, ou ir até os finalmente com os frutos colhidos na noite.

Há aqueles que têm seu ápice no ato da pegação e então voltam para casa afim de fazê-lo de novo na próxima vez, o que na verdade é uma satisfação parca e sempre efêmera, ela é feita para ela mesma, sem futuro ou progresso algum.

Mas há aqueles que mesmo envolvidos nessa cultura da satisfação momentânea do “carpem diem idiota” querem algo mais e no fundo tem uma esperança de conseguir algum relacionamento que dê frutos. E mesmo dentre esses tem aqueles que não querem perder suas vidas e continuam saindo do jeito que faziam antes, mesmo querendo, ou até pior, podendo ter algo mais serio com alguém e com isso embolotando todo o relacionamento.

Mas são aqueles que tentam encontrar um relacionamento sério em épocas de momentanismos que sofrem as causas mais sérias do nosso modo de vida, pelo menos desse do qual falo. São eles que ao tentar conhecer alguém batem nas muralhas da imagem. Aquela imagem que se tem que passar. Praticamente um manual dos encontros, relacionamentos e conversas.

Hoje em dia a diversão da vida não está em viver a vida, mas sim em projetar a vida que se acha que se vive. Criar todo um simulacro imagético em torno da sua existência para dar a ela uma consistência psíquica ilusória, que precisa ser reforçada freqüentemente.

Não se viver para ser feliz, mas sim para mostrar que se é feliz. Não vemos mais pessoas prazerosas de estarem vivendo, e não digo com isso pararem de viver para contemplarem a vida passivamente. Não há prazer até que se alcance o cume do Everest, sendo esse pico aquele que sempre aumenta algumas centenas de metros quando nos aproximamos do cume, e isso aplicado aos pouquíssimos que conseguem chegar perto do cume.

Programa-se uma vida, (projeta-se) a felicidade no futuro, imediato ou não, e com isso vive-se para o futuro. Nunca realmente experimentando a vida, vivenciando-a no presente, mas sempre fazendo a ponte do passado que se queria para o futuro que se deseja, vivendo um presente estagnado e esmagado entre duas irrealidades. Já que a única realidade possível é o agora, o imediatamente presente.

Mas vive-se uma vida de imagens que se programam para acontecerem de acordo com passados de amontoados de fatos com futuros cheios de projeções da idealização da felicidade.

O garoto quando pega alguém fica feliz por o ter feito, mas não por o estar fazendo. A menina se rende ao menino não por o estar fazendo, mas com aquela idéia de ter-se entregado as seduções ou mesmo a ter protagonizado e agora é a hora de pegar os frutos por aquilo. Sempre pensando em todo o processo menos naquele que acontece instantaneamente, pois se o assim fizessem isso pareceria vazio e sem sentido, pois porque ficar com alguém que não se conhece se isso não fizesse parte do passado do processo da sedução e do futuro da sua repetição ou então do seu desdobramento em um relacionamento?

Tudo isso para procurar a felicidade, e para terminar acho eu que se não sabemos o que é felicidade, pelo menos podemos supor que é a busca contra o sofrimento, e com o sofrimento eu passo a palavra, deixando claro que ao vivermos para o passado e para o futuro, evitando o presente, mesmo em sofrimento, deixamos de viver.

“A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sono atrasado.

A gente se acostuma, para não se ralar na espereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida, Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma” (Marina Coiassanti - JB 29.10.72)

leandroDiniz
Enviado por leandroDiniz em 05/10/2005
Código do texto: T57061
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Sobre o autor
leandroDiniz
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 34 anos
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leandroDiniz