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FOME SEI LÁ DO QUÊ

Escrever é fome. Fome sei lá do quê. Aquela fome que vem do nada e você abre a geladeira e tem tudo menos o que você quer comer. E então você fica pensando naquela torrada de presunto e queijo com guaraná Charrua que você comprava no bar do colégio, naquele bolo de laranja com raspas de casca de laranja que todo domingo a sua vó fazia, naquele fettuccine ao molho de ervas finas acompanhado de iscas de filé mignon que você fez uma vez há muitos anos atrás e nunca mais teve tempo (ou dinheiro, ou coragem, ou simplesmente vontade) de repetir a dose.

Escrever é uma fome que não se resolve comendo qualquer coisa. É uma fome de um desejo inexplicável. Você pode até disfarçar com um sanduíche ou saciar com um banquete, mas fica sempre aquela sensação de "tava bom, mas não era beeeem o que eu queria comer".

Você vê a folha em branco e pensa na barriga vazia. Você digita as primeiras letras e elas até vão preenchendo o nada, mas nem sempre caem bem. Você termina e digere o texto pronto e ele está ótimo, mas ainda assim... Sempre parece faltar um salzinho.

É muito difícil conseguir escrever exatamente o que a sua mente cria; o que o seu coração palpita; o que o seu ser inteiro declama. A torrada feita na sua chapa nunca será igual a da cantina da escola, porque era outro você que ficava na ponta dos pés pra enxergar a atendente. O bolo nunca terá aquela medida exata de raspas de laranja, porque era outro você que espiava dentro do forno para ver se ele estava lá. O molho nunca mais dará aquele mesmo ardidinho na língua, porque era outro você que vestia o avental de cozinheiro.

Então, você olha pra folha branca toda tingida de você e enxerga quase você. Enxerga você escrito. E você escrito parece com alguma coisa que você comeu, mas que não lembra quando, nem onde, nem o nome, nem muito menos quem fez. É uma vaga lembrança. É um gosto, um cheiro, um momento. É um desejo. É um reflexo da sua alma. Você come sabendo que não é exatamente o que você queria nem como você queria. Só que é bom mesmo assim. Escrever é uma fome insatisfeita que gera mais fome. E ainda mais vontade de escrever.

O que eu queria mesmo era tomar um guaraná Charrua. Daqueles de garrafinha de vidro.


Mulher de Sardas
Enviado por Mulher de Sardas em 06/10/2005
Código do texto: T57177
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Sobre a autora
Mulher de Sardas
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 36 anos
50 textos (9999 leituras)
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Mulher de Sardas