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GAROUPA : UM PEIXE DIVINO OU PARA O PURGATÓRIO EU NÃO VOU

          Tempos atrás, quando consultava uma revista culinária italiana, li algo surpreendente.

Era uma seção onde o chefe de cozinha respondia as perguntas dos consulentes. Dizia um deles que desejava preparar uma carne ao molho de vinho, mas dispunha de dois deles completamente diferentes: um muito bom, tipo Barolo, dos mais caros e conceituados do mundo e outro, horripilantemente ruim, dos mais baratos, de nome semelhante a Ferrocianeto. E indagava como deveria proceder.

          Preparar a carne com o melhor e degustá-la com o pior ou cozinhar a carne naquele ruim e saboreá-la com o de primeiríssima linha?

          A pergunta era inteligente mas a resposta foi brilhante.

          O "chef de cuisine" começou por afirmar que nada que o homem faz ou produz, jamais poderá superar o teor dos ingredientes que o integram. Assim, se alguém for construir uma casa e empregar tijolos de terceira categoria, piso de segunda, azulejos defeituosos, madeira velha, telhas usadas e assim por diante, talvez consiga fazer alguma economia. Mas nuna obterá um palácio como resultado, pois o produto final sempre se ressentirá da má qualidade dos componentes utilizados.

          Esta regra, afirmou ele, aplica-se a tudo na vida, inclusive à culinária. Se com ingredientes de primeira linha já é difícil preparar um bom prato, com produtos de inferior qualidade nem com talento e arte se conseguirá fazer algo que preste.

          E arrematou: você tem um vinho excepcionalmente bom e outro que não serve para nada. Jogue fora este último e vá ao supermercado para adquirir um bom vinho italiano, por preço módico. Prepare com ele a carne e, se quiser, pode convidar-me pois terei imenso prazer em ajudá-lo a degustá-la, tomando esse Barolo que você quase põe a perder.

          Lembrei-me desta história, porque outro dia consegui adquirir algumas bonitas postas de garoupa, peixe que não é fácil encontrar.

          Ele vive nos mares temperados e águas quentes do mundo todo. Mas é difícil de capturar. Não vive em cardumes como badejo ou merluza. Nem consegue ser criado em cativeiro como o salmão.

          Pelo contrário, costuma andar só, em contato com o fundo, escondendo-se em tocas e fendas de quinze a cinqüenta metros de profundidade na costa marítima. É facilmente reconhecível pelo corpo gordo, cabeça grande com relevos e espinhas, bocarra enorme e a nadadeira nas costas. Chega a atingir sessenta quilos de pêso e constitui prêmio de primeira grandeza para aqueles que se dedicam à pesca submarina.

          De sabor é tão bom que você pode prepará-lo da forma que achar melhor, pois é excelente grelhado, imcomparável quando ensopado e magnífico assado. Arrisco dizer que você pode inventar a receita que quizer que sempre dará certo. Mesmo se sua especialidade limitar-se ao macarrão instantâneo.

          Só não pode deixar de comê-lo.

          Aliás, nesse tópico, vale a pena salientar que é muito importante que você o deguste em vida.

          Porque é de todos sabido, quando você for desta para a melhor e, à porta celestial deparar-se com São Pedro, ele com certeza irá indagar-lhe:

          Meu filho (ou filha), você que em sua vida terrena teve todas as oportunidades de servir-se do melhor e a quem nunca nada faltou, com certeza experimentou um filé de garoupa grelhado, com qualquer daqueles deliciosos molhos que o acompanham como artesanal de tomates com camarões, ou ainda a Capri com cogumelos e aspargos?

          Tenho certeza que olhará fundo nos seus olhos e lhe perguntará se já o degustou gratinado com creme branco, palmito e ervilhas frescas? Ou ainda aquele estonteante filé de garoupa gelhado com creme de espinafre ou mesmo acompanhado de uma singela salada verde? Ou quem sabe, teve  a ventura de saboireá-lo com molho de laranja e damascos, perfumado com grãos de pimenta rosa?

          Sei que nessa hora aziaga, você sentirá na alma, intensamente, a profunda do arrependimento e muitíssímo constrangido balbuciará: " Não, São Pedro, sei que não adianta mentir." E, na tentativa de agradar o bom velhinho você até arriscará: "posso até afirmar so senhor que cheguei a ler várias crônicas sobre o assunto escritas pelo inteligente e excelente "gourmet" que, com o perdão da palavra, é seu chará.
E que sempre recomendou experimentar esse peixe. Mas confesso que, ainda que convencido, lamentavelmente, nunca cheguei a degustá-lo.

          Ele então, calma mas inapelavelmente, lhe dirá: "Você irá para o céu porque merece. Mas antes vai passar duzentos anos no purgatório para deixar de ser tonto"

Tagobar
Enviado por Tagobar em 09/10/2005
Código do texto: T58129

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Tagobar
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