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COM A BOCA NA BOTIJA



     Com a Boca na Botija
                                                                                                                       
Final do expediente. Hora da saída do serviço. A gare da Estação Engenho de Dentro estava totalmente lotada e todos aguardavam ansiosos a chegada do trem com destino a Santa Cruz. Com a aproximação da composição, os usuários se posicionavam como para disputar uma corrida de cem metros.
O trem chegou. O trem parou, as portas se abriram e os empurrões aconteceram. Dentro do vagão a superlotação e aqueles que desejavam saltar. Na plataforma, os que em grande número faziam força para embarcar. As portas se fecharam e quem entrou, entrou e quem não conseguiu saltar, ficou. A esta altura, os sapatos engraxados perderam o brilho pelo pisa-pisa. Gemidos e xingamentos eram ouvidos quando uma pisadela mais forte acontecia no calo de estimação. O balançar do vagão se incumbia de acomodar os passageiros. Pessoas acostumadas diariamente a esta viagem, afirmavam saber quando inchar e quando desinchar. Inchar para dificultar a passagem e desinchar para facilitar a passagem. Para se ter leve idéia da superlotação do vagão, caso o passageiro levantasse o braço para se apoiar no balaustre, não teria condições  de voltar à posição inicial. Os ¨ bens intencionados¨  procuravam se posicionar estrategicamente atrás de uma gata gostosa de bunda grande para ir tirando um sarro até ao final da linha. O calor era intenso lá fora e maior ainda dentro do carro, apesar dos ventiladores que não funcionavam.
Três eram as atividades constatadas na composição ferroviária. A comercial representada pêlos camelôs ambulantes, a religiosa pêlos pregadores com seus cânticos e o cassino ferroviário, pêlos jogadores de sueca. Ditas atividades respondiam pelo desconforto do trabalhador cansado.
- Com licença! – Uma passadinha... 
  O sorveteiro camelô tentando passar para vender  o seu sorvete.  
- Olha o sorvete Superbon... Vinte centavos
- Skol gelada! Guaraná natural! – Quem vai?
- Amendoim  Nakaiama, 3 por cinqüenta centavos ...
As caixas de isopor tinham de passar por onde não dava para passar mais um alfinete. A grande torcida, o trem chegar a Estação de Cascadura, Madureira ou a de Deodoro, estações de desembarque para baldeação e de alívio para os que seguiriam viagem.
Depois de Deodoro, a próxima parada a Vila Militar.
Encostado nas proximidades de uma das portas, havia um pivete com cara de não bons amigos. Com a parada do trem na Vila Militar, o rapazinho com rápido movimento, puxou o relógio com pulseira de um passageiro, arrancando-o de forma violenta. Saltou e a porta se fechou. Enquanto o trem começa a se deslocar,  passou ele a exibir da plataforma o produto roubado como troféu de vitória, para a tristeza da pessoa roubada. Eis que para a surpresa geral, a vitima caiu em risada nervosa se dobrando de tanto rir, sem que ninguém atinasse a causa. Apontando para fora deu para se ver. Atrás do malandro, sem que ele sequer percebesse, dois soldados da Polícia do Exército que patrulhavam a estação, presenciavam tudo e já o segurava pelo braço, apagando de chofre aquele sorriso de vitória. Foi pego com o relógio ainda na mão. Foi pego COM A BOCA NA BOTIJA.



                                                                         
Tino
Enviado por Tino em 11/10/2005
Código do texto: T58587
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Sobre o autor
Tino
Fortaleza - Ceará - Brasil, 89 anos
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