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Transparente 

Rosa Pena




— Você é burro, incompetente, quase uma besta.

Falar desta forma com amigos e conhecidos não é mais falta de educação. Virou qualidade!

Qual? Ser transparente, cristalino, autêntico.

Junte-se, ainda, a estas qualidades o direito do dito acima ser de veneta.

Pois é, minha gente, andei olhando-me bem e cheguei à conclusão que sou opaca e não sou de veneta. Sou opaca careta!

Aprendi na infância regras de boa educação. Aprendi a ser condescendente, tolerante, a buscar qualidades no meu semelhante, a exaltar o lado bom de cada um, a tentar ser complacente com os passantes que convivo. Atualmente cheguei à conclusão que ser assim significa para um monte de gente
que eu não sou transparente.

Estava questionando-me intimamente se para ser digna de confiança devo ser grossa.

A pessoa grosseira, sem tato, a que machuca, a mal-educada realmente passou a ser vista como a sincera, e a educada como hipócrita.

Não estou falando de dizer mentiras, apesar de considerar que eventualmente são necessárias as tais mentiras sociais. Nunca diria na cara de uma mãe que o filho dela é horrendo, assim como não consigo vaiar um cantor numa noite de estréia.

Então, eu sou uma antítese ambulante do padrão atual. Sou opaca, muito opaca, pois realmente não consigo mesmo aniquilar ninguém. E ser educada atualmente é ser opaca, é ser omissa, sem personalidade, estar em cima do muro. Educação virou sinônimo de dissimulação.

Elogiar está démodé, gentileza também é antiguidade. Seguir um padrão de conduta, como cumprimentar diariamente um vizinho, ser previsível nas atitudes, coerente, dizer “obrigada”, “por favor”, “valeu”, mais ainda... dizer “te amo”, é ser falsa, até mesmo careta, pois ser de veneta, bem de veneta mesmo, tipo um dia falar bonito com o amigo e no dia seguinte gritar, dar ataque, dá mais ibope. Estes têm o tal passaporte “veneta transparente”, que justifica tudo. A sociedade aplaude, dizendo que o “cavalo falante” é assim mesmo:

— Não ligue, ele é de veneta, mas sincero, transparente, legal. Sempre falará a verdade, doa a quem doer.

Dirá na sua cara que o seu marido a trai e que você merece, já que você está um lixo!

Transparência ou inconveniência?

Porém, o mais engraçado disso tudo é ver os tais venetantes transparentes falando de paz depois de terem jogado as pedras. E falam convictos, pois até eles mesmos acreditam que são autênticos, seres do bem. Eu, hein!

Em tempos de pit bull, labrador não tem vez. 



Livro: PreTextos

Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 13/12/2004
Reeditado em 25/10/2008
Código do texto: T589
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rosa Pena
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