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PROFANAÇÃO


 
                                       
Profanação                     

 A realidade termina aqui. Aqui mesmo começa a fantasia, a imaginação, a ficção.
A ficção pode também se transformar em realidade? É estrada de mão dupla!  
O que tenho para lhes narrar, é uma estória lida há alguns anos e que hoje, por acaso vi acontecer...  
Centro antigo desta Cidade, dita Maravilhosa. De um lado, o Cais Pharoux, ponto de atracação das barcas vindas de Niteroi. Praça XV, que barato! Totalmente remodelada. Pistas de rolamento por cima, por baixo, passagens para pedestres; acabaram-se os congestionamentos. A estátua de D.João VI em comemoração a sua chegada ao Brasil. Mais adiante, o Paço da Cidade construído por Gomes Freire de Andrade e inaugurado em 1743 como residência dos vice-reis. Teve ainda a denominação de Paço Real e em 1808, de Paço Imperial.  Após a Proclamação da República, foi sede do Departamento de Correios e, pelo outro lado da cidade em direção a Praça Mauá, a Rua Primeiro de Março com suas imponentes igrejas externamente sujas e empoeiradas. Nas portas, os  pedintes profissionais a murmurarem:  -  Por favor! Uma esmola! – Deus lhe pague!
Não fosse o sinal existente no cruzamento da Av. Presidente Vargas, o tráfego fluiria melhor. A Rua Buenos Aires tão estreita ainda como as demais ruas do centro do Rio no início do século. A Rua do Rosário, com suas lojas comerciais, casas de pasto, barzinhos, ponto principal de alimentação para quem trabalha  nas imediações. O Mercado das Flores.
Era minha intenção ir ao Banco do Brasil,  lá para as bandas da Praça da República. Por curiosidade e pela atração do  perfume das flores, aí me detive.
- Como funcionaria o Mercado? – Pensei.. 
Seria igual ao *mercado livre das prostitutas no calçadão da Praia de Copacabana? Pura e simples troca ... A entrega por alguns minutos da beleza física contra um  punhado de dinheiro! US$ de preferência. Situado em área não muito grande, os seus boxes se enfileiravam lado a lado, como num grande prêmio de fórmula 1. A ornamentação, com suas próprias flores em vasos que se revezavam,  davam  colorido especial ao ambiente. Cada vaso  mais bonito do que o outro. O chão molhado e a nuvem de água era espargida  qual orvalho. Calor de 38o Como manter tão delicadas criaturinhas neste ambiente infernal? Geladeiras, sim! Geladeiras reguladas para as flores e revezamento dos  vasos.  Num rápido passar de olhos, vi: Rosas vermelhas, brancas, amarelas, chá. Vi violetas, quaresma, amor-perfeito, orquídeas... Interessante!  Não me ocorreu nunca ter visto rosas azuis .
Rodando pela área, me detive no Box 7 – Flores do Meu Jardim. Lá dentro, o Sr. Alberto, homem de seus 60 anos, baixo, meio gordo, trabalhava com agilidade e portava um imponente charuto no canto da boca. Não sei precisar que quantidade de charuto estava dentro da boca. Mascava e fumava. Mascava mais do que fumava, como se fora uma goma. Preparava com maestria coroas, arranjos, corbeilles. A cada flor colocada com cuidado, o charuto mudava de posição. Quando a mudança era do seu agrado, piscava forte, retirava o charuto da boca, misturava a saliva com o fumo mascado e lá se ia uma "ostra" gosmenta para qualquer lado em sinal de que o trabalho ia bem. Do arranjo à corbeille pelo nascimento, aniversário e presente de amor, à coroa, como última e derradeira homenagem póstuma, sempre a presença significativa da flor.  O trabalho do Sr. Alberto estava prestes a terminar. Era uma encantadora braçada de rosas chá, entremeadas com rosas amarelas enfaixada pôr fita de cetim e papel transparente. Olhava o trabalho... Retocava. Não!... Não estava legal ainda!  Buscava a perfeição.
- Moço !
Era eu que me encontrava na frente do box apreciando o seu trabalho.  
- Então! O que acha? Perguntou.
- Podia colocar mais rosas amarelas no centro. Disse-lhe eu.
- É ! Fica bem melhor...  
Enfim, dava pôr terminado o trabalho. Estava realmente lindo o arranjo de rosas. Qualquer gata ficaria muito feliz em receber tal presente.  
- Porque as mulheres adoram receber flores como presente?  
Não sei dizer porque cargas d’água. Não sei dizer se por "simpatia" ou por intuição, mas a verdade é que o nosso artista deu uma tragada no seu charuto  babado, tirou-o da boca e lançou forte baforada do tabaco mal cheiroso em cima das castas rosas!  
- O que é isto? – Porque?  Perguntei .   
-  É para dar sorte amigo! Muita sorte!!!        
- Isto não é uma PROFANAÇÃO ?  
 

 
                                                                       

 
Tino
Enviado por Tino em 13/10/2005
Código do texto: T59241
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Sobre o autor
Tino
Fortaleza - Ceará - Brasil, 89 anos
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