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DE MOTORISTA A PREGADOR

                                         
De Motorista a Pregador

 A nossa crônica começa homenageando toda a equipe responsável pela realização do filme  A CENTRAL DO BRASIL.
A conquista do Oscar é problema político. Envolve outros fatores que não a arte cinematográfica. O que vale mesmo é o reconhecimento, é a consagração popular do filme na própria terra dos criadores do troféu. Parabéns...
De desvio em desvio, os vagões pareciam querer pular dos trilhos e os passageiros, jogados prá lá e prá cá... Era o trem chegando ao seu destino final. A Central do Brasil. Portas abertas, a saída e a correria desenfreada em direção ao próximo destino.
Em formato angular, o prédio da Central tem no vértice, a grande torre com seu relógio monumental apontando nas quatro direções do Rio, culminando com o grande mastro para ostentar o Pavilhão Nacional. Da Ponte Rio-Niteroi dá para se visualizar tanto a torre como o relógio em todo o seu esplendor. A gare, como toda gare ferroviária, ampla e sem colunas centrais e com  outro relógio este, para os usuários. Bancas de jornal e Revistas, agências dos Correios, guarda bagagem, guinches, bares, roletas... O sistema de som anunciando a partida do próximo trem.
Em frente  ao portão principal, a velha edificação do então Palácio da Guerra, testemunha ocular da Proclamação da República.
Pelo lado leste, lá para depois da Av. Presidente Vargas, o Campo de Santana com suas árvores centenárias, jardins floridos, chafarizes, fauna própria (cotias, pavões, gatos famintos),  caramanchões com seus bancos rústicos mas confortáveis servindo para descanso e reflexão das pessoas estressadas, mendigos, namorados, apreciadores da natureza. É um oásis de tranqüilidade e de beleza silenciosa dentro do caldeirão louco e efervescente que é o movimento da grande metrópole.
Por baixo da Av. Presidente Vargas, o moderno metrô com saídas para todos os terminais. Ainda aí, no terminal de ônibus para a zona sul, local totalmente tomado pêlos camelôs, vendendo de um tudo, churrasquinhos de gato, pastéis de carne, refrescos ...
Para o lado oeste, deparamos com outro terminal de ônibus, agora para a Baixada Fluminense. Este local sofre  assaltos a mão armada diariamente. Rua Marsílio Dias, com os seus famosos ¨ pés  sujos ¨, restaurantes aonde se saboreia uma bacalhoada gostosa regada ao bom vinho. As mesas colocadas ao comprido sem nenhuma formalidade para se sentar. Assim, é comum, trabalhador braçal, suado sentar-se ao seu lado, levantar o braço para apanhar o sal e exalar aquele perfume de desodorante já vencido. Não bastasse isto, os sanitários bem próximos das mesas com a conservação deixando a desejar. Ainda nesta rua, hotéis de prostituição e casas assobradadas com cartaz ¨Alugasse Vagas ¨.
Mais para frente, o túnel João Ricardo, escuro, pessimamente conservado, perigoso durante o dia e mais ainda durante a noite, interligando a Central ao Cais do Porto. Terminais de carga e becos, locais desertos e freqüentados pôr prostitutas, mendigos e viciados. Aí encontramos meninos e meninas de 8 a 12 anos se prostituindo abertamente.
- Vem moço! – Vamos transar! – Sou todo seu... Me pague um prato de comida.  Estou com fome...
- Hei! Menino! Você é menor de idade! – Vou levá-lo para a delegacia do menor!  Vociferava o guarda ferroviário.
-   Deixa ele seu viado!!! – Não tá fazendo nada! – Só quer comer... Explodia a menina da vida que se encontrava no local.  
Este o ambiente hostil e degradante do nosso Terminal Ferroviário.  
O destino, a zona sul da cidade. O ônibus, o de No 125, Pça Gen Osório, parado no terminal do lado direito da Central. Horário previsto de saída: 18:06 horas 
Ao chegar ao veículo, notei que algumas pessoas se posicionavam para sentar próximo ao motorista.
- Pretinho! Cheirou cola hoje?  Perguntou o motorista
- Não... Seu Pedro, não cheiro mais...
- E a aula com D.Maria?
-  Eu fui, tá legal.. 
A mesma pergunta foi feita para o Bicudo, para o Tenente e para o Bocão. Bem ou mal, o motorista Pedro cuidava, a sua maneira destes meninos e eles o respeitavam.
-      Não há menino mau. Dizia ele. – O macete é saber lidar com eles.
  Pronto o ônibus, ligou o motor e deu a partida. Não parava a máquina do carro de trabalhar e nem parava o motorista Pedro de falar. Casos e mais casos. Casos envolvendo garotos,  policiais, furtos, prostitutas, era um desfile de acontecimentos. Até ao Teatro Municipal, o trânsito ia lento. Era aquele anda e para.
-     A Sra. deseja saltar?  - Calma! – A sua vida vale muito... – Pronto! – O carro já está encostado no meio fio. – Pode saltar agora!
Era a gentileza em pessoa. Sempre encontrava uma palavra de otimismo com o guarda de trânsito, com o motorista do outro carro, com o pedestre...
Quando adentrou ao Aterro do Flamengo, pista livre, sem sinal, sem ponto de parada até a Praia de Botafogo, o motorista Pedro assumiu o púlpito, pegou a bíblia, abriu aleatoriamente e começou a pregar sobre o capítulo sorteado.  Possuía poder de síntese muito grande e sempre dava como exemplo a sua realidade de vida, a Central do Brasil.
Ainda me recordo que numa das viagens o tema foi: Não furtarás! Um dos dez mandamentos.
Pregava ele:
- Não furtarás 1 tostão
- Não furtarás 1 pão
- Não furtarás 1 milhão.
- A falta é a mesma !
- Quantos neste ônibus poderiam afirmar: Eu sou honesto!
- É fácil pregar para pessoas com a barriga cheia...
- Como pregar para os meus meninos famintos a não furtar um pão, um tostão para mitigar a fome? Um milhão nem pensar, não sabem o que é isto...
Após o Túnel Novo, já em Copacabana, voltava a realidade e passava a ser novamente o motorista Pedro. Ao cruzar com o guarda na Xavier da Silveira perguntou: 
- Como vai o trânsito no aterro? – Tá legal! Respondeu o guarda.
Ainda me lembro quando saltei, ele disse:
- Vá com Deus! – Boa Noite!
-   E o que é feito do motorista Pedro, o Pregador?
Certo dia, cheguei no horário certo de saída do carro, 18:06. Não vi o Pedro nem o seu ônibus. Como os demais perguntei:  
- O que houve com o Pedro/ -  Cadê o Pregador?
- Foi despedido!!! Respondeu o fiscal.
- E porque?
-   Pôr economia! Economia empresarial! – Redução de Pessoal.
  MUNDO PERVERSO !!!  


 


Tino
Enviado por Tino em 13/10/2005
Código do texto: T59416
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Sobre o autor
Tino
Fortaleza - Ceará - Brasil, 89 anos
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