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Bois na invernada

Nasci na década de oitenta, tempo de inflação galopante e de muita desigualdade social, bruto como um boi. Mas um bruto humano. Vivenciei dissabores coletivos e individuais; mal distinguia a mão esquerda da direita, o que na hora de dar benção aos meus, uma exigência à época, deixava-me embaraçado. "Menino, a bença se dá cum a mão direita. Num é cum está não; está é a esquerda.", alertavam-me por vezes. Muitas vezes, aliás, que eu reincidia no "erro" com frequência. De família extensa e de poucos recursos, apreendi desde cedo o custo da vida a observar meus pais e irmãos na luta pela sobrevivência. Hoje, após mais de três décadas, lamento dizer e sentir que pouco o Brasil evoluiu em termos de divisão de riquezas e justiça social.

Estamos no ano de dois mil e dezessete, no entanto chegaram a meus tímpanos três histórias recentes, como que trazidas por voz oculta, a me relembrarem arbitrariedades de outrora, dos anos 80-90. Como protagonistas uma aluna universitária, um desempregado e um vendedor de picolés.

Há até quem ache engraçados os relatos a seguir, provavelmente aqueles que, de um modo ou de outro, nunca os vivenciaram nem pessoalmente nem na literatura. São os "donos dos cercados", para os quais o mundo, desde que os tenha como norte, está bem posto. E os "bois na invernada", a massa, o povo, que se apertem, biquem-se, mordam-se, sangrem-se: para estes não há motivos para rir dessas histórias. Há motivos para indignar-se ou resignar-se; para rir, creio, seria exagero.

Um professor universitário, em aula, desejava saber o motivo pelo qual alguns alunos seus não tiraram a xérox do material que ele lhes recomendara. Entre as justificativas uma destacou-se. Houve quem alegou ausência do responsável pelo trabalho, outros esquecimento, e uma aluna falta de dinheiro para tirar cópias do material. Ou seja, ela não retirou as cópias do material porque não tinha o dinheiro para isso.

O desempregado queria o emprego, entregou o currículo e foi chamado para a entrevista. Na ocasião lhe pediram que escrevesse uma redação sobre um tema qualquer, de no mínimo vinte linhas, e ele se viu em apuros. Não fez o que lhe pediram, entregou a folha em branco, e quando o aplicador lhe perguntou o motivo o desempregado lhe disse: - "Senhô, sôfro da vista. O medico me passô óculo, mas não tenho o dinheiro pra comprar. Num dá pra fazê a prova, as letra fica miudinha, e a vista queima". Não conseguiu a vaga: necessitavam de alguém letrado e bom dos olhos para a vaga de vendedor de motos.

O picolezeiro saiu de casa cedo, pegou seu carrinho de picolés e foi trabalhar. Uma criança inocente lhe para em via pública não para lhe comprar um picolé, mas para adverti-lo: - "Moço, seus chinelo tem corrêa cororida. Bonito." E o picolezeiro: - "Não, menino. Uma corrêa pocô, e eu tinha outra corrêa em casa. Eu troquei a corrêa quebrada. Num tenho dinheiro pra compra outra havaina." Não eram "correias coloridas" eram "correias reutilizadas". A criança talvez não tenha compreendido por que quando alguns cidadãos arrebentam as correias de um chinelo, não podem substitui-lo por outro. Talvez porque não saiba, ainda, o que significa inflação, desigualdade social, ou qual das mãos é a mão direita e qual a esquerda. Se o mundo não a 'engolir' cedo, logo tudo isso passará: apreenderá a ler, aprenderá mesóclise, a conjugar verbos, as quatros operações. Deixará de ser criança para tornar-se um número em meio a outros em tempos de guerras e bois na invernada.
Daminhao
Enviado por Daminhao em 21/04/2017
Reeditado em 21/04/2017
Código do texto: T5976929
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Daminhao
União dos Palmares - Alagoas - Brasil, 30 anos
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Daminhao