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INSIGNIFICANTE SUPERIORIDADE.

Eu estava vendo o “face” de uma filha, (como os pais fazem por curiosidade); não para vigiar e encontrar motivos para chamar-lhe a atenção. Primeiro, porque para ela, há muito tempo que eu deixei de ser superior. Fui isso, num passado distante, quando trocava suas fraldas e lhe dava banho; quando entendia a sua fala a pedir água e comida, num idioma de criança (difícil é de entender o criances); quando arqueado em uma cadeira deitava seu corpo no meu até que ela arrotasse após as mamadas, e até quando as golfadas me banhavam o peito e um cheiro azedo de leite penetrava meu ser nauseabundo. Fui superior, quando a - vi vitoriosa com um canudo na mão, ainda na fase ginasial, depois, quando terminou o segundo grau. E quanto mais ela estudava, parecia que eu desaprendia; deixava de ter razão. Mas, ainda era eu o ser de superioridade, que aplaudia por dentro a minha menininha.
Depois, ela entrou na universidade e se tornou doutora (eu aplaudi muito mais), embora já começasse a perder a superioridade. Fui ao seu mestrado e assistir o seu doutorado; fiquei cheio de orgulho, cheio de mim, que até me vazavam os comentários, quando dizia aos presente: essa é minha menina! Vejo agora que me enganara, com certeza, a criança dos meus tempos de superioridade deixara de existir, fora diplomada, concursada e aprovada para formar outros doutores. Meu tempo passou! Hoje eu sou o cara que quando não concorda com ela, vira um Zé Mané que não entende de nada, sou um cara de cabelos brancos, mãos calejadas e boca banguela e já começo a ser um fardo na vida dela.
 Descobri nesse tempo, que os filhos se formam para se desinformarem de tudo e de todos; enchem-se de rebeldia; seus amigos tornam-se a sua verdadeira família e por ela, tudo é feito, tudo é possível. Percebo então que nós os pais, nascemos para criarmos superiores de nós mesmos e depois de criados, voltamos a ser o pó da terra, pisado por todos; passamos a conviver com a nossa própria insignificância.
Mas, como eu dizia bem no começo, eu entrei no “face” de minha filha e para congraçamento meu, vi um comentário dela a pedir que alguém lhe vendesse um ingresso para assistir a Paulo Leminski (acho que numa mostra de poesias ou num sarau). Confesso que não sabia direito quem era o Leminski e para tanto me socorrera no google e com grande satisfação li varias de suas poesias e me deleitei. Eu adorei o Paulo e seus trocadilhos. Percebi quão bom gosto a minha filha tem. Por outro lado, eu também gosto de escrever, mas, não chego aos pés do Leminski (quem me dera). Lembrei que algum tempo pedi a ela que lesse os meus poemas, para me dar uma opinião. Nunca fui atendido; tinha sempre uma frase pronta: “hoje eu estou cansada, tenho que prepara aula pra amanhã ou, depois eu leio”. Ainda estou sem o reconhecimento dela. Bem feito pra mim, quem mandou não ser um Leminski. Mas, fico a pensar na cara dela, quando daqui a um tempo (quando eu não estiver mais por aqui) e ela deitada em sua cama ou em um sofá ler o poema “VIDA” de Mario Quintana: “quando se vê, passaram-se 50 anos!”.
fidians
Enviado por fidians em 19/05/2017
Código do texto: T6003266
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
fidians
São Manuel - São Paulo - Brasil, 58 anos
74 textos (841 leituras)
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