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saudades em folhas de alface

Saudades  em folhas de alface.
       Era religioso em minha infância o lindo prato de folhas de alfaces que minha avó punha em sua mesa de pedra embaixo da parreira na hora do almoço e jantar.Eu era pequena de maneiras que não tinha boca para por uma folha inteira em uma garfada  como faziam mas eu pais e avós,mas eu os observava fascinada ao verem sumir as verduras em suas bocas,então  picavam em pedacinhos as alfaces para mim. É, eu deveria gostar mas ,em verdade, eu não sentia gosto de nada a não ser de  sal e azeite.Minha revolta iniciou quando o Fininho que ficava a meu lado atrás de meus restos de guisadinho , arroz ou algum osso,refugou as alfaces.E Fininho tinha bom gosto!Acabei declarando para todos que nao ia mais comer alface,já que Fininho sempre lhes virava o focinho e era insensível a sua beleza.Sim,antes que me critiquem,não havia ração na época, e os cães comiam e adoravam a comida dos humanos e,creio,desenvolviam paladar;Fininho cresceu saudável,o pelo era lindo e abanava o rabo para o guisadinho com feijão e batatas -como eram singelos os cachorrinhos de nossas infâncias!-.
As folhas de alface continuaram na mesa e me acompanharam na adolescência, enquanto seguia olhando ainda com fascínio a boca de meus pais se abrirem enormes e sedentas para elas.Em um almoço perguntei:
-Pai que gosto sentes com a alface?
Ele :
-Pois,deixa eu comer mais uma folha...pois sabe,filha,tem gosto de tempero,acho que como porque me habituei .
Caí na risada e disse:
”-Pai,acho que comes porque são bonitas,acho que vem sempre para a mesa pela mesma razão.Elas decoram!”E decoravam tanto que meu tio Julio Cesar habituado a transformar seu prato em verdadeiras obras de arte fazendo uma montanha de arroz com o feijão por cima, começou a cobrir ambos os quitutes,deliciado,com folhas de alface.Os pratos do tio Julio chamavam a atenção ,eram enormes morros verdes e recheados com feijão o arroz,e carne Mas minha epopeia com as folhas de alface não termina aí, pois minha mãe me matriculou em um colégio onde ensinavam boas maneiras à mesa ,e quando recusei alfaces no almoço a irmã Ambrósio,uma enorme freira belga,veio pressurosa me ensinar a comer alfaces:pegava se uma folha,posicionava se o garfo no meio e,com a ajuda da faca ia se enrolando a folha até formar uma pequena trouxinha.Ela me mostrou , fez com perfeição, e  me alcançou.Naquele dia,quando a trouxinha entrou na minha boca,cheguei a gostar de alfaces!Gostei até o momento em que tive de fazer, e eu não consegui fazer aquela trouxinha linda, pois a alface quebrava,as trouxinhas ficavam desbeiçadas e eu desolada;quando vi,havia terminado o tempo do almoço e perdi de saborear um belo assado por me meter a engenheira de alfaces.No outro almoço declarei que era alérgica à alfaces e mostrei uma bolinha no braço que tenho desde criança á irmã Ambrósio.Nunca mais!Como moro comigo atualmente, não compro a verdura, mas desisti de a ignorar  quando ontem no supermercado procurava por manjericão para fazer molho pesto ,e um Sr muito gentil me estendeu  um enorme molho de alfaces:-É isto que a Sra. procura?
-Não, obrigada,procuro manjericão.Novamente ele me estendeu a verdura,perguntando:”-Mas não quer levar estas alfaces também?Veja,que lindas!”Eu só pensava com meus botões”se ele soubesse”! ou, ”como será que ele come alfaces?faz as trouxinhas da madre Ambrósia ou enfia folhas inteiras em sua boca?”Eu já estava de saída, mas não pude conter o riso ao vê lo com a cara vermelha intrigada mais o enorme maço de alfaces que me ameaçavam perigosas e vingativas, e meio que fugindo assoprei”-É uma alergia ás lembranças infantis que folhas de alface me provocam,Sr!” Certamente eu não poderia dizer tudo,não poderia dizer que agora elas me lembram uma mesa de pedra embaixo de uma parreira  cheia de cachos de uva,meus avós e bisavó, meus pais,uma travessa de alface e o Fininho:gente amada
. Alfaces temperadas com saudades, ficam gostosas!
Suzana da Cunha Heemann
Enviado por Suzana da Cunha Heemann em 25/05/2017
Código do texto: T6008972
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Suzana da Cunha Heemann
Fortaleza - Ceará - Brasil
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Suzana da Cunha Heemann