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DA JANELA DO ÔNIBUS



  A cena eu flagrei da janela do ônibus. Tratava-se provavelmente de um morador do centro da cidade, ocupante de  um dos muitos cortiços que se espalham pelas cercanias do cais do porto.

  Por breves instantes divisei aquela figura combalida e  idosa, com as pernas inchadas, caminhando com grande dificuldade e apoiada numa rústica  bengala, tentando com muito custo desviar-se dos inúmeros obstáculos existentes na calçada. Aliás, além dos buracos que formam enormes poças d’água em dias chuvosos, há sacos de lixo, barracas de camelôs, etc. Tudo para dificultar o pobre do pedestre que, por vezes, é obrigado a caminhar pelo leito carroçável.
 
  Santos tem essa particularidade. O chamado centro, que outrora foi a parte nobre da cidade, hoje é apenas a parte velha. Nele se concentra um comércio decadente; bares, lanchonetes e alguns restaurantes; repartições públicas, bancos, escritórios, empresas de despachos marítimos, etc. Há também prédios históricos, igrejas   e antigos casarões - alguns ainda bem conservados - que dão testemunho do  apogeu vivido por seus proprietários, os chamados  “Barões”  na era do Café, cuja exportação era e ainda é feita pelo Porto de Santos.

  Nos anos 40, no século passado, ou  antes ainda,  a cidade vinha se expandido e  tornou-se “chic” morar nas proximidades das praias, até então com poucas habitações. Foi quando a coisa mudou de figura, causando  um surto imobiliário que valorizou os imóveis da orla marítima. O centro ficou reservado exclusivamente para atividade  comercial e a chamada vida boêmia. Havia boates como o “El Morocho” e “Night and Day” que ficaram  famosas no mundo inteiro. como também o “Samba-Danças”, pois eram freqüentadas pelos tripulantes dos diversos navios estrangeiros que aqui aportavam.
 
   A orla do mar foi urbanizada. Construíram-se magníficos jardins que são os mais extensos (e dos mais belos) do mundo, citados no Guiness Book, o conhecido livro dos recordes. Isto atraiu muitas pessoas, incentivando a parte turística da cidade com enorme  desenvolvimento.
Hoje o Centro, em grande parte abandonado,  ainda permanece vivo, como proclama uma campanha institucional em prol da sua revitalização, tendo dado  sinais de melhoras.

   Mas, o leitor deve estar a se perguntar,   e aquele ancião flagrado da janela do ônibus?

   Sinceramente não sei... O perdi de vista... Assim como perdi muita coisa ao longo do caminho... inclusive o fio da meada desta crônica...

EMILIO CARLOS ALVES
Enviado por EMILIO CARLOS ALVES em 17/10/2005
Código do texto: T60378
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Sobre o autor
EMILIO CARLOS ALVES
Santos - São Paulo - Brasil, 69 anos
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EMILIO CARLOS ALVES