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Sem saída...ainda sou poeta

Vestígios de mim, caminhei sem pés, mas com muito receio de virar a esquina. Murmúrios, sirenes, provavelmente estaria ali imóvel, estendida no chão. Resisti aos medos e dobrei a esquina. Mesmo que não quisesse olhar, segui e vi a face leve, uma das mãos ao peito e a outra estendida sobre a calçada.
Perto, apenas uma senhora a qual despertou minha atenção, versejava Fernando Pessoa e segurava uma pedra cravada com as palavras ´Alma da Poesia´ junto ao peito. Ouvi os pensamentos de pessoas que estavam mais próximas as quais se perguntavam: qual o motivo dos versos? Por que não rezava? Talvez seria uma endoidecida ou uma conhecida daquele corpo alvo com uma folha de papel em branco no peito. Aproximei-me, sabendo que não seria notada, porém, puro engano. A senhora fixou os olhos através de minh´alma e disse - Basta de fuga, não finjas ser tua poética esgotável, teu corpo e alma são liras que se completam, as palavras tua pele - Silêncio.
Não havia ninguém. Não existiam ruas, calçadas e muito menos esquinas. Apenas brumas e brisas.
Despertei no quarto com um papel em branco na mão e na mente a suavidade de versos declamados de Fernando Pessoa, que ecoavam dentro de mim:
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Lembrei-me do adormecer, jurei naquela noite que nunca mais escreveria um verso. Cerrei os olhos e levei o fim da vida poética para um sono que pareceu-me eterno. Assim morri.
Sono de horas, sonho definitivo. Sobrevivi e ainda sou poeta.
Pupila
Enviado por Pupila em 17/10/2005
Código do texto: T60604
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Pupila
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Pupila