A DIFERENÇA QUE APROXIMA

Imagine aquele típico rosto nordestino, olhar cansado, pele enrugada na face, que conta mais experiências do que mil livros, chegando em casa com o alimento para a família, depois de um dia de trabalho ao sol de quarenta graus.

Enquanto a mulher prepara o jantar, ele toma um banho com a água do pote que a chuva ajudou a encher, troca de roupa e acende uma vela para a estátua de São Jorge, agradecendo por mais um dia de colheita.

Use mais uma vez a sua imaginação e troque a estátua do santo e ponha uma do Ganesha, o Deus hindu com cabeça de elefante no lugar. Troque o chapéu de palha do homem e ponha um turbante da cor que você imaginar. Troque a saia rendada e o pano na cabeça da mulher preparando a comida no forno de barro e ponha um sari colorido e pulseiras no braço. E você terá a visão típica de um indiano que vive no campo, além dos turistas, além dos gurus e loucos, além das confusões e das armas nucleares em conflitos que ele nem sabe por que razão se iniciaram.

Para ele, o que importa é o alimento da família, e todo o resto vira cenário, história em volta de fogueira que ilumina o campo onde a luz não chega.

Viajando pelo interior da Índia, cada vez mais percebo que somos realmente um só. Muda-se a fronteira, troca-se a língua, os costumes, e encontra-se o mesmo povo lutando pelas mesmas coisas que por lá tem um nome diferente.

O mesmo povo que sorri quando a chuva vem e chora quando ela se vai levando embora tudo o que eles tinham.

O mesmo povo de olhar expressivo e sorriso-pétala esperando um pingo de motivo para desabrochar numa linda risada.

O mesmo povo que com suas crenças, quer seja por santos, quer seja por deuses, vibra no peito uma paixão verdadeira pela própria existência.

Vim para a Índia encontrar o exotismo e diferença, e encontro tudo igual ao país em que nasci.

Não entendo a língua que eles falam, mas aprendi a ler olhares e traduzir sorrisos, por isso compreendo e os valorizo tanto quanto o povo da minha terra, ou o povo de outras terras, separados por fronteiras, mas unidos pelo mesmo coração que bate forte celebrando o sopro de vida que a cada dia habita em todos, quer seja no Brasil, quer seja na Índia.

SOMOS TODOS UM SÓ!