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SUMMERTIME

Roda o disco  na vitrola.Sons rouquenhos, chiados. Roda o disco, roda. Vindo do fundo dos tempos, das recordações  do disco pesado  de 78 rotações  o silvo longo  de um trompete. Sinto meu corpo  eriçar, os pelos  e penugens  do braço levantar. O som longínquo, triste. Lamentoso  repercute  no meu quarto quase escuro. A noite lá fora  ainda não pediu  licença  para entrar. Cobre a cidade  com o manto de mil  buracos das estrelas  fugidias. Dos planetas e da Lua  que se mira no fundo  do poço escuro, como agora mesmo  se mira nos igarapés  e nas cruzes de Carajás. O som doente  de um lamento  escrito por um branco de alma negra.Um instante  suspenso  no último acorde  do langoroso  som do trumpete. Sobe  a voz da negra mulher  tomada pela doença, pela bebida, pela morfina. Esgarça  as palavras  como se estivesse a procurar  pelos deuses e musas  de olímpicos céus, a dor que sente por ter  perdido um amor distante. O amor que  a trocou pela guerra -  mulher ciumenta- Ela agora  sofre por ter deixado  seu homem partir. Por ter sido fraca, e aguarda o dia  que volte inteiro – assim espera – deixando a Deusa da Discórdia satisfeita. Sabe  que muitos destes voluntários da pátria  ofendida  morreram ao lado de outros homens brancos, e que  um dia quando  a hecatombe  terminar, voltarão  para seus trabalhos  subalternos, sem direitos sequer de assistir  o mesmo filme no mesmo cinema que seus companheiros de farda. Recosto-me  na cadeira  esperando a voz  quente da mulher  semente  da revolta  dos que não puderam  aproveitar  o sonho da terra das oportunidades e dos bravos. Lentamente, buscando  no fundo de sua própria existência, explode a voz  da negra mais branca do Mundo.

SUMMERTIME. . .


MARIO ORTMAN FERREIRA FILHO
GROTIUS
grotius
Enviado por grotius em 22/08/2007
Código do texto: T619203

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Sobre o autor
grotius
Santo André - São Paulo - Brasil, 62 anos
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