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                  Eu e o meu pintassilgo

    Meu pintassilgo cantava o dia todo. Eu tinha por ele uma amizade sem tamanho. E ele parecia entender tudo: era só me ver, abria o biquinho, e soltava alegres e demorados gorjeios! Nesse tempo, eu morava numa casa com jardim; ele tinha, portanto, muito espaço pra cantar.

    Um dia, pelo telefone, avisaram-me que ele acabara de morrer. Deixei o escritório correndo. Quando cheguei em casa, encontrei-o estendido no chão frio da gaiolinha que, durante anos, lhe servira de morada.

    Não ouvi o seu último canto. Por isso, não sei dizer se foi um canto de dor, ou de saudade... De indignação? Talvez.  No derradeiro minuto de vida, um pipilo de protesto contra a prisão que lhe impusera, apesar da sua gaiola prateada, da água cristalina e do alpiste da melhor qualidade que sempre lhe oferecera.

    O pintassilgo é um pássaro pequenino, frágil e colorido.  Mede de 11 até 13 centímetros. 
    Uma curiosidade: as fêmas são reconhecidas porque as cores - amarelo, amarelo esverdeado, preto e negro acinzentado - de suas penas, de suas asas, do seu bico e de suas pernas - ao contrário dos machos, são menos acentuadas! O pintassilgo macho é, portanto, mais  bonito.

    Enterrei meu pintassilgo no jardim de minha casa, ao lado de uma cheirosa e imponente trepadeira. 
    No mesmo jardim, no passado, enterrara um cardeal, um periquito australiano, um canarinho belga; e até um hamster que, com suas traquinagens, alegrou a infância de Paulo Fernando e Adriano,  meus filhos.
    Fazia perigosas acrobacias numa minúscula roda-gigante de arame. Cansei de parar, para aplaudi-lo.

    No meu jardim eu tinha um jasmineiro, uma espirradeira, uma imensa buganvilia e um frondoso flamboayant. O flamboayant, além de dar acolhedora sombra, à noite, hospedava dezenas de rolinhas, e alguns sonhaços.
 
   Vendi minha casa, que, imediatamente, foi derrubada. Compungido, acompanhei as máquinas da voraz Construtora desmanchando-a, sem dó nem piedade. 
   Em poucas horas, minha buganvilia desapareceu; e também minha espirradeira, meu pé de jasmim, e o meu flamboayant.
    O "cemitério" dos meus passarinhos foi impiedosamente soterrado. Hoje, quando passo pela Avenida Paulo VI, uma das mais movimentadas de Salvador, sinto saudades de minha casa e do meu pintassilgo. 

    Sou um velho passarinheiro. E continuarei a sê-lo. Não adiantam as críticas que os amigos e os indiferentes me fazem;  algumas levando-me a pensar no meu santo protetor. 
     Mas São Francisco de Assis me conhece.  Sabe que, como ele, também amo os pássaros, estejam eles nas gaiolas ou fora delas; soltos no mato.

    A verdade, entretanto, tem que ser dita: meus passarinhos nunca se mostraram descontentes em suas gaiolas. Nunca fizeram greve: nem de fome, nem de canto. 
   Possui um sabiá, passaro difícil de ser criado em casa, que, alta madrugada, fazia belíssimas serenatas!
   Sem ligar para as críticas que recebo, vou continuar na companhia dos meus canários, dos meus galos-de- campina, das minhas graúnas. 
    É melhor viver no mundo dos pássaros. Porque, como dizia Rubem Braga, um passarinheiro assumido, "anda feio o mundo dos homens!"

      Ah, os passarins! Cantam, cantam, de repente entristecem, calam e morrem... 
         Bom seria que eles nunca morressem...       


 
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 23/08/2007
Reeditado em 14/05/2013
Código do texto: T620516
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Felipe Jucá
Salvador - Bahia - Brasil
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Felipe Jucá

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