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Passeio Monótono Por Curitiba

Passando pela Praça da Universidade, um grupo com tambores de um toque forte e pesado, um toque legitimamente africano, emocionante, contagiante. Jovens dançam e se divertem, riem, brincam como crianças, sob o céu escuro e gelado, das mais frias noites de inverno da terra do Vampiro e da Polaquinha.

Passos adiante, um estranho círculo que se forma, um estranho ressoar que lembra salas de concertos e shows de música pop. O rapaz com cara de roqueiro e roupas de músico de orquestra, dedilha em sua guitarra elétrica algumas das mais belas composições da música popular e erudita do Brasil e do mundo.

Sigo em frente, pois que outra roda de capoeira está a formar-se em meio a este calçadão. Nesse mesmo lugar, horas atrás, estava eu a admirar as flautas chilenas, tocadas tão habilmente por aqueles companheiros de luta do magnífico Viento Sur. Ainda não sou capaz de ouvi-los tocar Cio da Terra sem chorar.

A noite está fria. A não ser que eu fosse capaz de acompanhar aqueles amigos argentinos no magnífico show de malabares que nos apresentam, preciso de um conhaque para aquecer o corpo e a alma. E eu não sei nada de malabares.

Cadê o bar? Já sei. Sigo pelo mesmo caminho por onde vim. Impossível não parar para ouvir mais um pouco aqueles maravilhosos tambores e atabaques. Ah, preciso apurar o passo senão acabo fazendo fiasco por aqui, tentando dançar, arte que não é minha.

Ah, o bar. Entro e vou logo reparando que a luz está mais fraca que o habitual, bem como a música está mais alta. “Jamal”, grito eu ao dono do bar, que me faz sinal de “depois”. Sim, eu espero. Mas nisso me esqueço do mesmo e só tenho olhos para a belíssima dançarina do ventre que com sua espada abre caminho entre a saliva despejada por tantas bocas abertas. E ela se deixa envolver pela música, nos deixa envolvidos por seus passos e ritmos. Ao menos eu estava, não sei se os outros estavam da mesma forma exatamente pelo ritmo, pela performance, ou pela forma da moça.

Enfim, música e dança, belíssima dança que nessas paragens tem o toque adicional da ginga que encanta e seduz, tanto quanto a sedução daquela dança tão sensual e magnífica. E o meu conhaque? Ah, lá vem ele. Mas aqui está muito lotado e não estou disposto a passar a noite no balcão. Outro lugar, afinal, meu conhaque já foi, a dança já foi.

Ah, outro bar, onde com certeza haverá mesa. Pra lá eu vou.

Que estranho som é esse? Será que errei de lugar e adentrei a uma sala de concertos? Não, numa sala de concertos não haveriam tantas vozes falando paralelamente à música. Ah, aqui é realmente o bar. Mas e o som, não me parece mecânico.

“Aquela mesa ali senhor”. Sento-me. E é da mesa logo ao lado, uns dois ou três metros de distância, que vem o som de uma pequena miniatura de teclado, acompanhado pelas vozes de cantoras e cantores da ópera que está para estrear daqui a dois dias no magnífico teatro daqui vizinho. Ah, belas canções entoadas por tão belas vozes. Quisera eu ter a capacidade do mesmo. Mas tenho o prazer de vê-los cantar, relaxados e sem pressão, sem nada pagar. Ah, isso realmente não tem preço mesmo.

Duas cervejas ao som de tenores e sopranos, de baixos e barítonos, é algo magnífico. Mas preciso ir embora, pois amanhã acordo cedo. Mas em apenas duas cervejas minha mesa fica repleta de convites para peças de teatro, performances artísticas, shows, recitais, exposições e todo o tipo de evento que se possa imaginar. Tudo para hoje e amanhã. É tentador, mas preciso ir embora.

Ah, o velho mural que tantas vezes me causou atrasos no trabalho. Impossível passar por ele sem encontrar nenhum cartaz de alguma programação irresistível, preciso passar sem olhar.

Sabia que não conseguiria evitar. Olhei e, mesmo de relance, vi duas peças de teatro começando a meia noite, irresistíveis, mais três shows imperdíveis. Mas vou resistir e vou embora.

Toca o telefone:

- Pronto.
- Daí cara, qual a boa de hoje?
- Olha, pra mim a boa é a minha cama, pois preciso acordar cedo amanhã.
- Ô, vai deixar os amigos na mão assim? Estamos aqui, eu, um camarada e três amigas. Mas precisávamos de você, pois ta difícil de encontrar alguma coisa interessante para fazer. Essa cidade não tem nada hoje, ta tudo parado.
- Pois é, mas eu não posso. Se você não está vendo nada interessante para fazer, vá aos clássicos, eles sempre resolvem.
- Então ta. Até mais.
- Até.

Volto, olho novamente para os convites em minha mesa, o mural, lembro de todos os lugares pelos quais passei naquela noite e penso: “Nada para fazer? Cidade parada? Isso é que é poder ser exigente.”.
Jefferson Andrade
Enviado por Jefferson Andrade em 24/08/2007
Reeditado em 02/04/2009
Código do texto: T621852

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Sobre o autor
Jefferson Andrade
Curitiba - Paraná - Brasil, 38 anos
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Jefferson Andrade