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                   Ah, as velhas cartas!

   Em mais de meio século de vida escrevi muitas cartas. Nesse mesmo período, recebi outras tantas. Cartas de amigos e amigas diletos. E por que não dizer, muitas cartas de amor...

   Muitas dessas missivas - deixem-me usar a palavra missiva, hoje, praticamente esquecida - eu guardo com renovado e comovido carinho. Outras, simplesmente eu perdi! 
    Perdi,  mas quase todas permanecem vivas na minha memória... As que ficaram, moram no fundo de um baú. Quando a saudade aperta, as releio.Todas - as que guardo e as que perdi -, são capítulos da minha modesta história. 

     Ontem, no final da tarde, o carteiro bateu na minha porta e me entregou uma carta de uma velha e amiga. Uma carta escrita a mão! 
     A mão? Assustei-me, e com razão. Sim, porque o tempo das cartas escritas a mão já passou.  A internet está aí, com o seu correio eletrônico.
    Temos, agora, que nos contentar em receber e enviar aqueles insulsos e-mails, cuja assinatura é esta: fulano@provedor.com.br.

     Num passado já bem distante, as cartas eram usadas como o mais eficiente meio de comunicação. Paulo, o Apóstolo recorreu a elas para divulgar a mensagem do Mestre.  Suas famosas Epístolas aos Gálatas, aos Hebreus, aos Filipenses, aos Tesalonicenses, aos Efésios, aos Coríntios ajudaram a escrever o Novo Testamento. 

   Nossos melhores escritores também escreveram belas cartas.  Machado de Assis, embora afirmando não atribuir "valor literário" à sua produção epistolar, deixou bonitas missivas; como as que endereçou à sua idolatrada Carolina.

   Relendo, dias atrás, Graciliano Ramos, reencontrei-me com suas cartas amorosas. 
  Sua grande paixão? Heloísa Medeiros, com quem casou, no dia 16 de fevereiro de 1928.

   Em uma delas, declarando incondicional amor à sua noiva, confessa-lhe: "Eu te procurei porque endoidei (que linda palavra!) por tua causa quando te vi pela primeira vez."
   Isso, depois de reclamar, assim, de uma missiva de Heloísa, que considerou insossa: " Chegaram-me as duas linhas e meia que me escreveste. Pareceram-me feitas por uma senhora muito séria! Muito antiga, muito devota, dessas que deitam água-benta na tinta."

    Querendo casar, mas avesso ao confessionário, em outra carta a Heloísa, perguntou: " Conheces algum padre que me possa casar sem confissão? Não estou disposto a ajoelhar-me aos pés de ninguém. Mentira: estou disposto a ajoelhar-me aos teus pés, adorar-te." 

    Em suas cartas, está o velho Graça romântico. Diferente do Graciliano "deprimido, mais inclinado ao mau humor do que à ternura, que guardava para as letras, para a cachorra Baleia e para alguns poucos amigos", como o descreveu o  Otto Lara Rezende, também um mestre na arte de epistolar.

   Vez em quando, aproveito as sobras de minhas tardes, para reler as cartas enviadas por Mário de Andrade a Carlos Drummond e a Manuel Bandeira. Mário, um brilhante missivista, alimentou, só com Manu, uma vibrante e ininterrupta correspondência, durante treze anos.

   Não sei se o caro leitor gosta de ler e escrever cartas. Se gosta, leia Cartas na mesa, uma coleção de excelentes missivas do saudoso cronista  Fernando Sabino endereçadas a Otto Lara Rezende, Hélio Pelegrino e Paulo Mendes Campos.  Os quatro, já falecidos, formaram a inesquecível "turma de Minas". 

   E mais, surgindo uma oportunidade, mande uma cartinha para um amigo; ou para o seu grande amor. Mas só serve se for escrita a mão. Esqueça o correio eletrônico.


       
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 24/08/2007
Reeditado em 22/05/2013
Código do texto: T622113
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Felipe Jucá
Salvador - Bahia - Brasil
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Felipe Jucá

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