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O futuro do passado...








                A gente descobre que chegou á idade madura quando começa a se indagar sobre o que aconteceu com aqueles lugares e pessoas que conheceu quando era mais moço. Isto me acontece com  certa freqüência e tenho tido algumas surpresas, agradáveis algumas e outras nem tanto. Descubro que o meu cinema favorito, lá da minha cidade natal, a Rio Grande de São Pedro, primeiro encolheu, depois virou palco para espetáculos de sexo ao vivo, transformou-se milagrosamente em templo evangélico, mais tarde oficina mecânica e agora é um estacionamento, confirmando que nada se perde e tudo se transforma, talvez para pior.  A praça onde brincavamos na infância, transformou-se em “camelódromo” e quase foi destruída pelos comerciantes informais e seus fregueses.  Aquele amigo que na infância era chamado pelos vizinhos de “infernal” pelo que aprontava, agora mora na capital e é uma síntese do perfeito burguês, casado com uma respeitável matrona, pai de numerosa prole, não podendo faltar a monumental barriga, que cresce na proporção do seu sucesso como comerciante.  Um outro que encontrei na praia durante as férias e que era um notável jogador das nossas peladas de rua, agora é funcionário do porto. Só o que não mudou foi a dentadura e o apelido de “Dentada”, dado pela gurizada da Carlos Gomes ao sujeito, pois naqueles tempos, os aparelhos de correção dentária, hoje tão comuns, não existiam ou eram muito caros. Aquele incorrigível “gazeteiro” das aulas do nosso Colégio Estadual, o “Lemos Jr.”, transformou-se em um notável Juiz de Direito! Lembro também de um exímio músico, mestre do cavaquinho, que também enveredou pelo Direito, e hoje exerce a promotoria em uma cidade próxima. As más línguas dizem que o promotor continua tocando o instrumento escondido e que atua como músico nas horas vagas... Tem aquele cujo nome parece ter influenciado diretamente o seu destino, hoje é um importante líder sindical da nossa região e milita em algum partido de esquerda. O outro amigo barbudinho, companheiro de farras da adolescência, engenheiro mecânico que é, preferiu militar na política, talvez para justificar a barbicha que ainda usa.  É o que se chama de “figura difícil”, pois vive viajando pelo Brasil afora, “engenheirando” complicados pactos políticos. Tinha aquele grande jogador, mestre do xadrez, que acabou se tornando funcionário de uma Instituição bancária sem abandonar jamais o tabuleiro. Outro companheiro, antes dinâmico e incansável, surge agora morando na Praia do Cassino e me diz que está aposentado por invalidez permanente e que voltou á morar com a mãe.  Um vizinho lá da Carlos Gomes, sumiu cedo no mundo e ressurgiu muitos anos depois como respeitado jornalista e escritor de renome.  O escriba mora  em São Paulo, mas não esquece a terra natal e os seus amigos. De lá, nos brinda com os seus sensacionais livros e crônicas e aparece de quando em quando por Rio Grande. Aquele amigo do peito, companheiro e irmão de infância, grande goleiro dos nossos jogos de bola, seguiu  os passos do pai, grande ourives, mas agora tem um negócio de manufaturas em Porto Alegre e não consegue se desligar da sua cidade natal. Fiquei sabendo que a sua namorada mora na terra e que ele anda por lá todos os fins de semana e anda dizendo que um dia ainda volta.  Alguns se aventuraram por outras terras e continentes e de vez em quando sabemos dos seus sucessos ou fracassos.  Outros desapareceram na eternidade ou sumiram por este mundão de Deus...  O tempo deixa marcas em todos nós e como seres em evolução permanente que somos, trilhamos caminhos diferentes e por vezes estranhos e contraditórios. O furacão da vida não poupa ninguém e o vendaval leva sonhos e fantasias, quando não nos leva junto e nos deposita lá longe, por vezes muito distantes daquilo que fomos ou sonhamos. Sorte? Azar? Não sei.. C’est la vie...
LCRivera
Enviado por LCRivera em 24/08/2007
Código do texto: T622370
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
LCRivera
Santana do Livramento - Rio Grande do Sul - Brasil, 64 anos
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