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A onça


No inverno lá na roça, onde o sofrimento é aliviado pelos contadores de causos, é hábito acender uma fogueirinha e ficar alí se esquentando.
À noitinha os vizinhos vão se ajuntando, vão se sentando em tripés, se acocorando ou se apoiando nos calcanhares. São calmos, fala mole; a conversa custa a pegar, o assunto demora a se espalhar.
O dono da casa serve uma branquinha, que antes de ser bebida é servida pro santo de cada um. Depois o pedaço de fumo de rolo sai das algibeiras e, preso entre o dedão e o indicador da mão esquerda, é delicadamente fatiado por um canivete e aparado na  palma grossa e calejada do sertanejo. Depois de guardados os apetrechos, sai de um dos bolsos da camisa a palha de milho já cortada e preparada com capricho. A massaroca, cheirosa, é espalhada e o cigarro enrrolado, devidamente lambido e uma das pontas virada. È um encanto apreciar este ritual!
O isqueiro de metal, com uma torcida embebida em gazolina, se inflama com a faisca da pederneira ou “pedra-de-fogo”.
Mpá! Mpá! Mpá! Sugam os lábios ressequidos, e a fumaça cheirosa sobe pelo ar. È como um momento místico, como um verdadeiro incenso que os une.
No sítio do Lira a roda, à noitinha, era boa, animada. Lira era falante, garganta, gostava de exibir valentia. Vivia dizendo:
– Não acredito em home que de dia, em lugar de trabaiá, vai esquentar fogo! – Mas os amigos notavam que os pés do Lira estavam sempre sujos de cinza…
Também afirmava:
       – Não confio em home que dorme pro canto! – Na roça as camas são armadas em jiraus feitos de varas e os colçhões de palha ou capim seco. Para ocupar menos espaço e lhes dar mais firmeza, são encostadas, um lado e a cabeceira, num canto da parede de taipa ou barro batido. A mulher dorme junto da parede e fica, assim, protegida pelo marido,
   O homem que dorme pro canto é tido como medroso e comandado pela mulher.
     O assunto naquela noite fria e estrelada era uma onça que andava rondando as casas e comendo a criação. Ouviam o estrugir do bicho, o guincho apavorado dos porcos, o bérro das cabras. Nem cachorro escapava!
Cada um contava isto mais aquilo que o tinha impedido de caçar a diaba.
Numa noite todos acordaram com um tiro, lá pras bandas da casa do Lira, Correram para lá e logo o viram  com  arma na mão, o peito estufado  e a onça, mortona, debaixo do seu pé direito.
Cheio de empáfia o valentão contou:
–  Quando acordei com o grito do porco, fiquei de pé, agarrei a espingarda pendurada na parede e, bem depressa, pulei por riba da Nhá Chica, saí pro quintá e – pum! Matei a onça!
???? !!!!!
   
Christina Cabral
Enviado por Christina Cabral em 25/08/2007
Código do texto: T623009
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Sobre a autora
Christina Cabral
Aracaju - Sergipe - Brasil, 88 anos
59 textos (5846 leituras)
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Christina Cabral