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O PELUDO


Essas histórias contadas na roda de amigos e parentes, à porta da casa, debaixo de um luar translúcido, com aquele cheiro de maresia a penetrar o coração, traz uma doce saudade da juventude em Paraty!
Uns, sentados na pedra da soleira da porta, aquele bloco de pedra já afundado por tantos passos que passaram por ali. Outros, em cadeiras espreguiçadeiras esparramadas pelas pedras da rua, como se ali fosse a varanda da casa; também, nessas ruas não passa carro algum! Tem sempre alguém que se lembra de algum caso contado pelos antigos desta nossa doce Paraty. Os menores se aproximam mais, sabem que vêem vindo histórias novas, engraçadas ou aterradoras. E hoje é a história do menino peludo. Alguém conta:
Nasceu um menino muito peludo. À medida que ia crescendo, o volume de cabelos ia aumentando também. A cabeleira era cheia e comprida, braços e pernas cheios de pelo, o peito e as costas tinham cabelo até ao pescoço. Até nas costas das mãos e no peito dos pés ele tinha cabelo. Tem um nome essa doença, mas não me lembro mais.
- Conta outra,,,
-  Não interrompe, se não, eu paro, heim?
- Continua, continua, gritaram todos.
- Pois bem, apelidaram o menino  de Zé Peludo, o coitado.
Quando se tornou homem e a barba encheu a sua cara, (a do Zé Peludo, não a sua!) a meninada se arriscava chegar mais perto e o chamavam de lobisomem. Ele se calava, não respondia às provocações. Fazia o que tinha que fazer na cidade e ia embora para a praia onde morava e se recolhia com sua esquisitice. Pobre homem! Diziam até que madrugada alta, já tinham visto ele virar lobisomem, lá na praia dele...
Um dia, morreu na cidade uma pessoa  muito conhecida e até amiga de todos. Enquanto a noite não amadureceu de vez, o velório estava cheio de gente, mas depois, o cansaço foi tomando conta dos conhecidos e só foram ficando os parentes mais próximos e algum amigo mais chegado. O Zé Peludo estava lá. O morto tinha sido seu amigo desde a infância e ele se quedou no velório, disposto a passar a noite toda. Sentou na ponta de um dos vários bancos de madeira postos ali para todos. Só que, aos poucos, as pessoas foram se retirando de perto dele. Ainda ninguém se acostumara com aquela figura esquisita, ainda mais que ele era, por natureza e circunstância, de poucas palavras.
Como em todo velório daquela época, a “branquinha” corria solta e só as mulheres se dedicavam vez ou outra a um cafezinho quente.
Já madrugada alta, cansado de estar sentado naquela tábua dura, o Zé Peludo deitou-se ao comprido no banco e acabou adormecendo, apoiando as costas na parede. Os demais acompanhantes do defunto se encostaram uns aos outros e pestanejavam sonolentos. O silêncio era quase total.
Depois de um tempo, para aliviar a dureza da madeira do banco, o Zé Peludo se moveu gemendo meio dolorido. As pessoas despertaram de sua sonolência e alguém se arriscou a perguntar:
- Que foi, Zé?
- Nada, ora, só tô  virando...

Pronto, foi a conta, houve uma debandada geral. Foi só gente correndo porta afora e  rua abaixo numa desabalada carreira, gritando: ele tá virando... ele tá virando...!
Na sala com o defunto, ficou somente o pobre do Zé Peludo, sentado, aturdido, sem entender coisa alguma do que tinha acontecido... Até hoje. (Acho eu!).


Rachel dos Santos Dias

Rachel dos Santos Dias
Enviado por Rachel dos Santos Dias em 25/08/2007
Código do texto: T623410
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Sobre a autora
Rachel dos Santos Dias
Campinas - São Paulo - Brasil
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Rachel dos Santos Dias