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Tetas na cam
Vencendo barreiras

Sentei agora, depois de um belo banho, com um cafezinho fresco do lado, no meu escritório aonde as “coisas” acontecem. 

Sou médica e aprendi a conviver com dramas diferentes a cada minuto de minha vida e a conciliar minha vida profissional com a pessoal, sem ter direito de separar uma da outra.

Isto, ao contrário, me dá muita paz de espírito, pois vejo na minha vida um motivo a mais para ocupar dignamente um espaço neste mundo.

A mulher tem barreiras a enfrentar diariamente. Como no banco ontem à tarde. A funcionária parava meu atendimento porque sua filha se debruçou no balcão para perguntar se em casa havia almoço. A mulher respondeu que tinha feito sopa antes de sair de cada.
 
Ao invés de eu me aborrecer, pois estava com pressa, perguntei à funcionária se ela descansava nos finais de semana. A mesma disse que o sábado e domingo eram dia de lavar, passar e adiantar a comida da semana, etc. Como eu...

Pelo menos, nós duas tínhamos uma fonte de renda e fazíamos parte da classe média (privilegiada). Muito embora a mulher ultrapasse a média, uma vez que ela está em maioria habitando o mundo e, isto, como verão, é o tema fundamental deste texto.

Fiquei o dia todo tentando bolar uma crônica sobre “vencer barreiras’. Eu precisava encontrar algo do “cotidiano médio” e acabei descobrindo que estava diante dele ao chegar em meu consultório e começar a atender as pacientes.

Agora elas, quando se abrem comigo, sugerem que eu faça uma crônica sobre o “seu caso”, omitindo, obviamente, seu nome. Desta forma, eu hoje viajarei no mundo da mulher brasileira, de classe média, em torno dos 50 de idade. Ou seja: eu...
 
Escolhi Laura (nome fictício). Uma paciente antiga e por quem tenho verdadeira empatia. Por sinal, eu tenho empatia por todos de quem eu cuido. É aquele ditado: O médico tem o paciente que merece e o paciente tem o médico que merece. Fora o povo das instituições públicas, que, infelizmente, não tem direito de merecer quase que nada...

Laura foi “largada ao vento” pelo marido depois de mais de 30 anos de casamento. Ela vive se lamentando da vida – saudade (dia dos pais, Natal, supermercado, a cueca suja no chão, ect, etc, etc..), solidão (filhos grandes, casa vazia, silêncio deprimente), desejo sexual frustrado, ciúme da outra, mágoa, revolta, sentimento de inferioridade (ou de ter sido inferiorizada...). Sou eu? Não, mas, de repente, vendo por outros ângulos, sei direitinho o que ela sente. 

Não adianta dizer pra mulher que amor acaba e que cada um tem que tentar a sua felicidade. Mulher apaixonada e abandonada é pior do que onça sedada – não cutuca que ela tá viva e vai atacar quando puder.
Depois de eu ter sugerido tudo quanto é coisa para ela passar o seu tempo e aliviar seu sofrimento, tive como troco um olhar fulminante. Lógico... Sugeri tudo, até livro de auto-ajuda...
 
Para cortar o “efeito cascata” nos olhos dela, justamente por eu tentar consolar o inconsolável, surrealizei: “Arruma um namorado”.

A sua resposta foi: “Eu sou mulher de um homem só”.

- “Como é?! Você, que foi motoqueira, quase uma riponga da idade média, e está me dizendo que morreu para o amor???”.

Começo aqui a crônica sobre “vencer barreiras”, adaptando toda a conversa a partir desta pergunta. Como o diálogo foi mais do que coloquial, e como eu me vi em alguns instantes no que falou, Laura agora incorpora na médica e passa a escrever:

“Olha, Leila, graças a Deus que eu tenho uma renda para sobreviver e estou em melhor situação que muita gente por aí.

Veja: Eu não tenho grandes problemas de saúde, mas sei que isto é provisório. Todo mundo diz que eu estou na meia idade. Não sei que meia idade é esta, uma vez que não vejo ninguém à minha volta com 100 anos!

Eu estou na ponta. Na adolescência eu passava uma crise para estabelecer conceitos. Agora eu passo a mesma crise, só que vendo  a morte lá na frente -  não, um futuro.

Eu casei e amei profundamente um homem. Construí minha vida pensando que isto só acabaria na morte.
Descobri que no meio de minha vida algo teve começo, meio e fim.

Ele não está feliz, mas está casado com uma mulher bem mais jovem. Por outro lado, eu tendo meus filhos.
Ele só pensava no dia de os filhos crescerem para poder ter mais liberdade. Teve tanta liberdade que decidiu fazer uma nova vida.

Meus filhos me protegem, mas sinto falta do homem. Não adianta falar em arrumar outro homem...

Já viu quantas jovens estão se unindo a homens mais velhos? Não digo das aventureiras. Digo de mulheres que estão querendo a segurança de um homem maduro e responsável, mesmo que eles não tenham beleza ou saúde. Seja lá o que vai dar nessa relação, elas têm mais chances.

O que me sobra? Homem bom é homem casado e bem casado! Quem está por aí sozinho deve ter algo que todas estão dispensando.

Eu já tentei ocupar meu tempo e até pensei em trabalhar, uma vez que eu sou formada e inteligente. Já viu a dificuldade em arrumar emprego na minha idade? Quantos patrões querem uma mulher de 50, que vai enfartar ou ter artrose em breve?

Um dia resolvi me inscrever num clube de tênis. É óbvio que eu encontraria pessoas de nível social e intelectual melhores, e, quem sabe, alguém separado recentemente... Não prestou: Lá havia dezenas de moças com a metade da minha idade e com o corpo que eu tive na idade delas... Posso ser sexualmente melhor que elas, mas não tenho oportunidade de chegar na cama deles pra provar isso...

Parti para vernissages. Odeio vernissages, mas, caramba, quem gosta de quadros não deve ser nenhum babaca, não é?

Não eram... Só que, fora os gays, os machos estavam com lindas mulheres, num assédio quase que indecente. Desisti de vernissages...

Apelei para pagode. Piorou. Chegava cada cara imbecil se roçando na minha bunda que eu quase vomitava. 
Foi assim nas discotecas, bares com amigas e coisa e tal... Só me lembrava da minha vidinha quieta, dentro de casa, com o camisolão do marido – aquele filho da puta que eu amava e por quem eu vivi até hoje.

Filantropia e igreja é o que me sobram. Pelo menos, eu produzo e faço de minha vida algo de útil. Só que me falta o sexo, o cheiro másculo que substitua aquele que ficou na minha cama; ter o romantismo e o companheirismo que escoaram das minhas mãos – seja por incompetência minha, seja pela dele.

A Internet não foi uma experiência agradável. Chats e sites de encontros até que foram divertidas. Só que não espere muito de quem escreve do outro lado e não quer aparecer. As pessoas precisam se auto-afirmar nas palavras e no seu auto-conceito. Passam para nós aquilo que na verdade não são, ou não são capazes de ser no dia-a-dia. E tem mais: eu não estou aqui para botar minhas tetas na cam e dizer “gostoso, ”tesaum”, “eu naum vivo sem vc”.

E, mesmo ao vivo, a gente vê que muita família está sendo desfeita por causa destes remédios de aumentar tesão nos homens. Não me interrompa! Não fale! Deixa eu falar. Aqui você é minha médica e eu quero me queixar dos meus sintomas!

Estas bolinhas vieram pra melhorar o sexo dentro e fora de casa. Eu mesma peguei umas coisas aí que você teve que passar remédio pra ele também. Mesmo que não tenha me dito, eu sei bem que ele já andava por aí comendo fora. A fase da paumolescência era melhor, sabia?

Vou fazer algum curso e ver o que eu consigo fazer do resto de minha vida, sem pensar em homem - no meu homem, meu ex- homem...”.

Acabou o desabafo de Laura. Eu a deixei falar e falar... Minha opinião não era importante, pois ela a tinha muito concretamente sedimentada. Ela queria apenas ser ouvida com atenção e respeito.

Ouvi tudo que me dizia, como todos os dias de minha vida eu ouço, colho e planto idéias.
Espero, um dia, “doar” estes frutos.

Leila Marinho Lage
Rio de Janeiro, que continua lindo, 24 de agosto de 2007

 


Leila Marinho Lage
Enviado por Leila Marinho Lage em 25/08/2007
Reeditado em 08/12/2007
Código do texto: T623607

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Sobre a autora
Leila Marinho Lage
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 59 anos
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