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Tv-ginecologista

Os raros dias em que posso ficar em casa pela manhã e gozar de um bom e substancioso desjejum sem pressa e sem pânico são também freqüentemente palco de inusitadas experiências matinais. Vou explicar por que.

Sou um espectador compulsório de televisão.  Não gosto de assisti-la (muitas vezes nem que quisesse sobraria algum tempo para tanto), mas também não sou daqueles chatos que ficam atazanando a vida de quem quer fazê-lo. Limito-me a comer em silêncio e a tentar abstrair as noticias das guerras, catástrofes e da violência. Respiro fundo e tento me concentrar no pão e no café. Ouço apenas como se viessem de outro mundo os comentários tão ingênuos dos jornalistas tão preocupados com a reserva moral de nossa sociedade sempre na iminência da lama e da desordem.

Às vezes entro em tamanho estado de devaneio que nem percebo que as pessoas já mudaram de canal e os ponteiros do relógio caminharam. Só mesmo algumas frases bóiam no ar e desvanecem junto com a fumaça do café...

Quando dou por mim, estou no meio de um programa de variedades, um desses programas matinais destinados a cozinhar em fogo brando a audiência até os horários de pico e que são uma espécie de saco sem fundo no qual cabe literalmente tudo, das últimas tendências da moda à nova doença cardíaca, passando pela obrigatória receita do dia e pelas condolências ao último morto célebre da semana.

Entre uma mordida e outra o desfile de futilidades e abobrinhas se desenha com impressionante desenvoltura. Até que chega a esperada hora do “serviço social” televisivo, o momento em que os “especialistas” são chamados a responder sobre as mais variadas mazelas físicas e psíquicas, sobre a nova lei que entrará em vigor ou sobre os possíveis efeitos da nova variação cambial no bolso dos cidadãos. E assim por diante, até a exaustão.

Pessoalmente, um dos “especialistas” que mais me chama a atenção é o ginecologista. Estes programas, destinados em sua maioria para as donas de casa que costumam realizar seus afazeres domésticos com a televisão ligada, não podem prescindir deste profissional em sua grade de atrações diárias.

Não vou entrar aqui no mérito da importância social do aparecimento deste profissional em rede nacional, num país cuja rede pública de saúde é tão precária e a falta de informação é ainda o maior causador de certas doenças entre a população feminina. Analisado deste ângulo é um mérito da televisão seu poder de auxiliar uma pedagogia preventiva no campo da saúde.  O que eu gostaria de dizer aqui é que me sinto absolutamente estupefato com o grau de detalhamento e mesmo de “espetacularização” do corpo feminino, tratado muitas vezes como mero organismo que padece de enfermidades e que deve ser medicalizado.

Em um segundo, sei exatamente o funcionamento do ciclo hormonal, com que freqüência o ovário policístico pode causar dor durante a penetração e quais as medidas que devem ser tomadas pela mulher caso ela verifique algum nódulo nas mamas. Se o médico entrar num devir psicanalista, ele ainda dirá que sexo anal não é “perversão”, que beijar outras mulheres não é necessariamente homossexualismo e que só mesmo ir ara a cama sem “neuroses” é o melhor remédio contra a frigidez.

O ápice acontece com o espetáculo do nascimento ao vivo. Sob os holofotes os gritos de dor e prazer da mãe, os olhos marejados do pai e a repórter empolgada a fazer toda sorte de perguntas absurdas à parturiente. Muito sangue, placenta, choro e lágrimas.

Envernizado com o vocabulário técnico, o mistério da vida que se reproduz de uma forma tão singular, ato de resistência frete às intempéries econômicas e existenciais, se torna tão somente algo “bonito de se ver”, mas sem substância, sem a delicadeza do ato imemorial de trazer ao mundo outro ser que será imprevisível, único, fagulha de vida no oceano da morte. O espetáculo é que conta, o desmaio do pai dá ibope e o momento em que a mãe vê seu rebento pela primeira vez é a cena ideal para um close.

Absolutamente atônito, desligo a televisão e me pergunto se um dia haverá algum mecanismo que permitirá observar a vida de uma criança desde sua concepção, assim como no filme O show de Truman. Pergunto-me se um dia haverá ainda algum mistério do corpo humano que não será minuciosamente escrutado e televisionado e que não será engolido junto com o café da manhã.
Leonardo Soares
Enviado por Leonardo Soares em 27/08/2007
Código do texto: T626151
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Sobre o autor
Leonardo Soares
Fortaleza - Ceará - Brasil, 32 anos
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