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E agora, Doutor?

"O ontem é história, o amanhã é um mistério, o hoje é uma dádiva." (Autor desconhecido)

      Antecipo-me ao leitor para dizer que não tenho nada contra os médicos, enfermeiros, nem qualquer outra classe profissional relacionada à saúde, até mesmo porque tenho um grande amigo médico e namorei uma enfermeira. O que venho expor é a minha indignação frente ao fato testemunhado por mim, cujo desenrolar se deu em um povoado próximo à segunda maior cidade do interior baiano.

     De logo, cabe esclarecer que o vilarejo em questão é composto por maioria de jovens e adultos (alguns idosos), várias crianças, inúmeros portadores de preciosidades maiores da vida interiorana: a fraternidade, a bondade, a boa-fé. Abordadas essas peculiaridades, podemos nos debruçar sobre a história ocorrida em meados de janeiro e início de fevereiro de 2002.

     Uma senhora, muito conhecida e benquista por aquela comunidade, estava doente há vários meses. Seus filhos, desconhecedores da doença que acometia sua mãe, mantinham-na em casa, pois eles não tinham orientação, tampouco condições para encaminhá-la a um hospital a fim de que fosse tratada.

     Missionários da Igreja Católica, no entanto, ao saberem que a octogenária senhora padecia de patologia (ainda) ignorada pelos que a cercavam, incumbiram-se de levá-la ao Hospital Geral da cidade vizinha, o que se caracterizou como uma primeira vitória. Medicada, a senhora, em pouco tempo de internada, apresentou melhoras. Vibração na comunidade. Sinal de esperança existia. Seus filhos agradeceram ao missionários incessantemente.

     Dias após, a paciente, de súbito, recebeu alta. Retornou para o seu lar, na roça. O boato se espalhou pelo povoado, tal qual notícia ruim: "só estão esperando a velha morrer". Seus familiares, mesmo atônitos, tentavam pensar em soluções, em agir enquanto havia tempo para salvar (ou ao menos prolongar) a vida da matriarca.

     Nesse momento da história é que um jovem médico, cheio de idéias, projetos e vontade de viver, é comunicado, em tom de apelo, por uma amiga sua sobre a situação da idosa. Esperançosa em ser auxiliada pelo citado profissional de saúde - o Doutor - para que este se dirigisse até a casa da senhora e lá pudesse realizar alguma intervenção de pequeno porte ou encaminhá-la, utilizando-se de seu conhecimento na área, para outro nosocômio, foi que ele respondeu que nada poderia fazer. Motivo: para ele, lugar de paciente é no hospital. Médico não deve atender ninguém na residência, principalmente na do enfermo. Nada de atitudes paternalistas. Isso é papel do Governo.

     A porta da oportunidade havia sido aberta à idosa, mas foi fechada pelo Doutor. Tempo para auxiliá-la havia, porém atender no lar da paciente nem pensar. Ocorrido isso, conseguiu-se levá-la, porém sem maiores êxitos, para a Casa de Misericórdia da cidade. Recebeu os primeiros tratamentos, contudo em breve período deram-lhe alta e retornou para o vilarejo.

     Na manhã do primeiro domingo de fevereiro/2002, avisaram-me do óbito da velha (era assim que alguns costumavam falar). Morreu no sábado, por volta das 17 horas. Agora, já não havia mais tempo. O que era para ter sido feito, se não o foi, não mais adiantaria. E entre os olhares vazios a vagar em meio às lembranças, vívidas recordações, crianças, jovens, adultos e idosos velavam o corpo estirado no caixão alocado na pequena e humilde sala de estar. "Pelo menos tentamos de tudo. Todo mundo ajudou. Adeus, minha mãe", deve ter pensado o filho da finada, bravo combatente a envidar forças para salvar sua mãe quando esta lutava contra a morte.

     E o Doutor? Ele foi aprovado em concurso para integrar um grande hospital no Centro-Oeste do País. Arrumou suas malas dias antes e seguiu viagem, para cuidar da própria vida, sem sequer ter demonstrado interesse em conhecer sua ex-futura paciente, que clamava por socorro por intermédio de parentes, amigos e seres humanos zelosos pela vida, a fim de que alguém cuidasse dela.

     Ele foi embora. Ela se foi. Ele poderá voltar. Ela, nunca mais. Meus pêsames às duas famílias, porque um ente foi para outro lugar, distanciou-se, e o outro morreu (espero que por enquanto) para solidariedade.
Danilo Andreato
Enviado por Danilo Andreato em 10/03/2005
Reeditado em 10/03/2005
Código do texto: T6281
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Sobre o autor
Danilo Andreato
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 38 anos
69 textos (7588 leituras)
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