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        DIAS DE ADÉLIA     
                          
                                        “Dói-me a cabeça aos trinta e nove anos. 
                                        Não é hábito. É raríssimamente que ela dói. 
                                        Ninguém tem culpa. 
                                        Meu pai. Minha mãe descasaram seus fardos, 
                                        Não existe mais modo 
                                        De eles terem seus olhos sobre mim. 
                                        Mãe, ô mãe, ô pai. Onde estão escondidos? (...)” 
                                        (Adélia Prado, in “Poema esquisito”) 

     
     Eu não sei de vocês, mas tenho meus dias de Adélia e já vem antes dos 39. Já faz tempo em que tem dias que me dói não só a cabeça, mas o cotovelo e o coração. Dói o pé de saudade roxa que nasceu no lugar onde ela enterrou seus papis. Os meus, por obra e graça do Poderoso Chefão, felizmente continuam vivinhos. Mas longe, muito longe da criança que vos fala. E como todo William Shakeaspeare tem seus dias de Nelson Rodrigues, tem dias que acordo assim: “Mãe, ô manhê...Paiêê..., onde é que cês tão?”. Falem o que quiserem, me chamem de mimadinha, bebezinha estragada, mas colo de pai e mãe são coisas de que se sente falta a qualquer tempo na vida. 
     Faz falta, faz toda a diferença um colinho de mãe, daqueles que não falam nem fazem pergunta, mas que fazem cafunezinho na gente e trazem um prato da sua comida preferida de infância. Faz falta e diferença aquele colo de pai, que mesmo olhando a gente com cara de reprovação (que é dos pais se fazerem de durões) trazem escondidos no fundo do olhar um ar solidário e preocupado que vai logo dizendo “O que fizeram com você, minha menininha?”. Vai, me chamem aí de imatura, criançola quem nunca pediu pelamordeDeus e de todosossantoseanjosdoSenhor um desses colinhos nem que fosse por um segundinho, muitos anos depois de ter se declarado independente e a grande auto-suficiência do Universo? Hein, hein?? Ninguém pra me jogar pedra, né? Acertei na mosca. 
     Alguém metido a psicanalista vai dizer que isso é fuga, saudades da infância, regressão de personalidade, o escambau. Mas foda-se. Quando me dói a cabeça a tantos anos da infância, e junto com ela, o coração e os cotovelos, me vem feito pedrada esta necessidade ferrada de gritar a plenos pulmões: “Mãe, ô manhê...Paiêê...”. Mais que isso, vem aquela angústia doida varrida de achar que eu, nestes dias de Adélia, estou como ela, escutando a voz lá longe respondendo: “Ôô fia, ô fia...”, naquele tom que mistura ternura com firmeza de quem acode o filho de cabecinha fraca. 
     Sou criançola, é? Vocês não? Duvido. Du- vi – de – o – dó.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 24/10/2005
Código do texto: T62871

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai

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