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Ter ou não ter borogodó, eis a questão!
 

 Rosa Pena

 

Quando ele cruzou comigo no corredor do shopping e seus olhos castanhos bateram nos meus, percebi na hora que ele tinha algo mais. It, como dizia minha mãe, borogodó como eu antigamente dizia, agora não sei como se chama alguém que não tem o padrão atual de beleza, mas deixa pra trás qualquer Gianecchini.
"Tem He, tem She e tem It". It... O que é It, irmão inglês do borogodó? 

Sem querer passei as mãos no cabelo e conferi minha imagem numa vitrine. 
Entramos na mesma lanchonete e sentamos em mesas próximas.
Ouvi sua voz normal, jamais empostada como de um Cid Moreira ou a afinada de um Frank Sinatra, pedir um hot dog ligeiro. Voz apenas de um homem que vira celebridade por conseguir se manter feliz nos dias de hoje.
Ele não possuía os famosos bíceps, que alguns imaginam indicar  virilidade, pela camiseta afora, muito menos aquele jeito de play manemolente malandro, figurinha já tão carimbada nessa nossa tribo carioca. Nunca seria aceito num BBB, até porque já tinha passado dos cinqüenta. Cabelos naturalmente manchados de branco.

Lembrei-me da Cris, minha querida amiga portuguesa, que andou questionando o que seria borogodó.
Esse termo é que nem saudade, sem tradução. Tem que sentir para entender.
Quem tem  it não precisa ser uma Brastemp pra gente jurar que a pessoa é maravilhosa. São os portadores de um brilho bonito no olhar, possuem sensibilidade para ouvir os outros, um sorriso que desencana qualquer grilo, um jeito de mexer as mãos como se quisessem acariciar nosso rosto e a gentileza de oferecer a cadeira da frente pro mais baixo.

 Enfim, Borogodó ou it é um charme, um encanto pessoal, uma coisa perceptível pelos outros. Se a própria pessoa achar que tem, é porque não tem. A pessoa não pode dizer que tem algo mais, senão vai pecar na vaidade, perder a naturalidade, fator principal da questão.

— Tem borogodó! É a resposta que se dá quando se vê uma camaleônica Vera Fisher com um peixinho Al Pacino que é baixo, sem olhos azuis, barrigudinho, voz rouca de cigarro, mas dá um tesão louco.

O Pacino do shopping que me levou a todas essas considerações, quando pagou sua conta mandou-me um sorriso tão gostoso que eu jurei que tinha acabado de ver o menino do rio.
 Àqueleeee que provoca arrepio!

Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 30/08/2007
Reeditado em 07/09/2012
Código do texto: T630916
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rosa Pena
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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