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Boa Noite

Boa Noite

Hoje queria escrever algo leve, engraçado, sem pretensões. Só com objetivo de fazer alguém sorrir. Afinal, de triste já bastam os noticiários de TV, imprimindo em nossas retinas o retrato cruel da realidade, destacando sempre o pior que os seres humanos podem produzir.

E como produzem , meu Deus !

Observando com um olhar mais clínico, concluo que, desde que inventaram os noticiários, os filmes de terror se transformaram em divertimento infantil. Lembro do Fred Krugger, do Jason, do Chuck e começo a dar risada. Dráculas, mortos-vivos, Múmias e Aranhas Gigantes fazem qualquer bebezinho dormir em paz.

Já os noticiários, não. Nos transportam para o cerne de uma guerra nada santa, desarmados e impotentes diante do cotidiano violento, áspero. Sutileza nenhuma. Piedade, nem pensar.

É uma receita infalível de terror, onde não faltam ingredientes indigestos. Dor, miséria, morte, homens-bomba, mulheres-bomba, cachorros-bomba e poderosos sorridentes. Falta de luz, de água, de esgoto, de dignidade.

Da insuspeita telinha saem desmatamentos, drogas, corrupção, sequestros, desatres, assaltos, rebeliões, presídios lotados, mentes vazias, top models lindas, crianças famintas. Desastres aéreos, terremotos, tsunamis, explosões. Balas perdidas, gente perdida, sonhos perdidos que se acham no meio do caos.

E a gente assiste a tudo isso sentado no sofá, depois de um dia estafante de trabalho. Só prá se distrair um pouco.
Alguns até conseguem jantar enquanto assistem àquela selvageria. Mastigam macarrão com sangue inocente e ainda lambem os beiços, pensando : " Será que dá tempo de comer um pudim durante o intervalo ? ".

Não podemos perder nenhum acontecimentos.
Afinal, temos que nos atualizar, saber o que se passa no mundo. Temos que encarar a realidade. Pior : temos que nos acostumar com ela. Então a gente vai tentando mastigar as mazelas da vida, transformá-las numa massa pastosa e amarga. E engolir bem devagarinho...

As notícias continuam desfilando, e enquanto isso nossos corações disparam, as mãos tremem, a adrenalina já saindo pelos poros. Nosso olhar fica meio assim congelado. Nosso sorriso, além de amarelo, fica flácido. Cara de palhaço triste, assustado.

Nossos cérebros ficam espremidos de medo. Os neurônios se enchem de pânico, agarrando-se uns aos outros para se protegerem do mundo lá fora. Nossos espíritos se encostam atrás do armário, tentando escapar de uma possível granada. Ou quem sabe de um piloto suicida ?

Ficamos desconfiados e aflitos. Um tantinho neuróticos.

De repente, se observarmos bem, aquela velhinha do apartamento ao lado tem um tremendo jeito de serial killer. O vegetariano do outro lado do corredor certamente tem um cadáver na geladeira. O zelador do prédio, ahhhh, esse nem disfarça, tem pinta de traficante procurado até pela Interpol. Aquelas criancinhas brincando no playground são psicopatas de carteirinha. Pode apostar. O pipoqueiro da esquina então, nem se fala, é terrorista dos bons. Treinado no Afeganistão !

Ficamos zonzos e sem ação, sem saber ao certo se vamos conseguir dormir depois daquilo tudo. E se conseguimos, os pesadelos são um fato consumado, terror real com hora marcada. Pele arrepiada. Lençol molhado de suor frio, pé gelado...

E o pior de tudo é que o repórter ainda nos diz BOA NOITE !


Claudia Gadini
06/08/2002
Claudia Gadini
Enviado por Claudia Gadini em 24/10/2005
Reeditado em 10/11/2006
Código do texto: T63098

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Sobre a autora
Claudia Gadini
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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Claudia Gadini