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Reflexões nos Trilhos

7:30 da manhã. Mais um dia. Mais rotina. Menos vida. Menos alegria. Tudo bem, cada um com sua ótica do estado de coisas, a perspectiva é pessoal. Mas, de modo geral, a rotina espera por todos, implacável como é, em sua forma tediosa e correta, sem espaço para erros. Todos estão sujeitos à rotina da consciência. Dinheiro um dia se esgota. Se não literalmente, pelo menos de modo abstrato. Triste é quem vive pelo dinheiro, para o dinheiro, envolto no mundo da egrégora monetária.

Mas não vim refletir sobre papel. Venho falar da realidade que vejo todo dia, a realidade que não vende revista, que não é manchete de jornal, que não dá audiência para a TV. Afinal, criar ilusões sobre o estado de coisas é um modo de escapar a nós mesmos, ao nosso julgamento, o mais implacável de todos. Ou então falar da vida alheia. Diversão divertida. Aliás,falar dos outros mitiga a realidade, não? Que bom inteirar-se das fofocas. Já dizia Nietzsche: ''A melhor contribuição de um homem para com a sociedade é melhorar-se. Olhar para dentro, e reformular a si próprio todos os dias''. Quem se preocupa demais com a vida dos outros é miserável da alma, pois além de não ajudar, não conhece a si mesmo. Nem ao menos tenta.


Voltemos ao vagão, ao palpável. Eu ouço o vagão sacolejar, as pessoas a respirar, o maquinista a falar. E acontece o acontecido, o caos presumido.

Tin-Dum!

''Próxima estação: Brás. Acesso aos trens da CPTM. Desembarque pelo lado esquerdo do trem.'' -Anuncia o operador do trem.


E todos no vagão olham de esguelha para a plataforma que se aproxima, já se adequando ao abarrotamento consensual.
Sim, que venha o caos! Sim! E os olhares se cruzam, as pessoas respiram, o trem diminui a velocidade, e...

.

Tiiiiiiiiiiiiiiii. O metrô freia. Ploc! A porta se abre! Começa o espetáculo, ou melhor, a seleção natural. Darwin, se vivo, viria da fria Londres para estudar os fenômenos que ocorrem nos trilhos paulistanos.Talvez levasse até alguns espécimes para análise. Os mais fortes(ou mais ignorantes, como queira) empurram velhos, mulheres, crianças. Os gregos invejariam a democracia por aqui. Todos têm direito a não ter direito. Não há distinção.


-Ai! Meu Deus!

-Vai com calma, moço.

-Cara, vou parar do outro lado!

Uma pausa para a reflexão. O Brás, para quem não conhece, é um bairro de SP que já foi reduto de italianos, libaneses, espanhóis, que chegavam ao Brasil e lá se instalavam, no começo do século XX. Já dos anos 80 para cá, virou reduto nordestino, da mão-de-obra renegada pelos habitantes que usufruem de seu trabalho.Tão maltratados, e tão importantes. O que seria do executivo (que se vangloria do mérito próprio) sem a faxineira de sua empresa? Sem a empregada de sua casa? Sem a babá de seus filhos? Sem o lixeiro? Sem a ''moça do café'', que traz cafeína e motivação? Pois é.... Cada trabalho tem o seu valor, é claro, mas não devemos esquecer da base que sustenta o topo.

A reflexão cessa, pois fui sumariamente cotovelado. Foi uma forma carinhosa de recepção no trem. Mais 2 estações e chego na Sé, ponto central da cidade, centro histórico. Aqui é o centro das metáforas, do simbolismo. Aqui é o centro!
Caio Almeida
Enviado por Caio Almeida em 30/08/2007
Reeditado em 09/10/2010
Código do texto: T631160

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Sobre o autor
Caio Almeida
São Paulo - São Paulo - Brasil, 27 anos
40 textos (1682 leituras)
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Caio Almeida