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As saudades que no Passado tinha do Futuro

Tive a sorte de ter crescido nos anos setenta em parte por ter nascido de uma mãe portuguesa e de um pai pessimista.
Minha mãe sofria então de uma doença que se poderia chamar "portugalite" e que se caracterizava por uma cegueira debilitante e selectiva que a impedia de perceber a situação social em que se vivia, fazendo com que tudo o que de mau houvesse em Portugal o fizesse um país melhor do que qualquer destino de emigração.
Meu pai, um pouco mais saudável nesse campo, sofria de um pessimismo galopante, infectado por agentes patogénicos como ameaças nucleares, divisão bipolar do mundo, eternização de uma guerra colonial, independentismos e outros vietnams.
A discussão grassava num recém-casal em que o homem achava impróprio trazer filhos para um mundo sem rumo e para um país com vontade de o ter, e uma mulher crédula e confiante na certeza de que o mal não haveria de durar para sempre.
A "portugalite" levou a melhor e cresci então numa sociedade portuguesa conturbada e num mundo de mudança em que o que parecia apenas ser durável eram os conflitos e as ameaças.
Não me apercebi das revoluções sociais que se operavam em Portugal ou no resto do mundo antes de ter entrado para o "Liceu" e já íamos então na adesão à Comunidade Económica Europeia, aberturas de Hipermercados e ameaças de Perestroikas.
Apercebi-me sim, e por isso muito agradeço o facto ter nascido há mais de trinta anos, dos avanços científicos e tecnológicos, e das sucessivas e directas alterações do modo de vida.
Nessa altura havia tempo para ansiar. Sabíamos muito antecipadamente da existência de uma nova invenção que iria revolucionar a nossa forma de ver filmes, de ouvir música, de estar informado, de cozinhar e comer, de conviver, de viver cada vez melhor.
E como essas invenções tardavam a chegar, havia também tempo para apreciar o que já tínhamos ao nosso alcance.
Tal como os inimigos dos Estados Unidos que se mantiveram sobejamente estáveis por todos os anos 70 e 80 a música que ouvíamos nessas décadas mantinha-se nos tops durante um tempo apreciável e os filmes tinham tempo de produzir fenómenos de filas, semanas de exibições, bandas sonoras vendidas a milhares de exemplares e ícones de referência.
Sabíamos os nomes dos cantores, dos grupos, dos actores, dos jogadores de futebol por mais de dois anos seguidos e não era preciso decorar muitos nomes porque os gelados eram poucos, as pastilhas ou eram piratas ou gorilas e os iogurtes tinham uma longa vida.
Podíamos não saber muito do que se passava pelo mundo mas sentíamos vontade de saber, só porque tínhamos a impressão que nos andavam a esconder coisas.
É preciso ver que dois canais de televisão (que acabavam por ser um só) podiam muito bem se combinar para só difundir o que quisessem. Quanto aos jornais, tal como agora, não se pode dizer que fossem muito populares. Além disso, o que queríamos saber não era se a situação em El Salvador tinha melhorado ou se a Namíbia tinha por fim conseguido a sua independência mas sim que séries televisivas estavam a passar lá fora que fossem mais recentes do que o Ritintim ou a Missão Impossível; que tipos de aparelhos os japoneses tinham inventado para os americanos ouvirem música onde quisessem; quando chegaria, por fim, a Portugal o tão ansiado e falado Compact Disc que iria por fim passar a perna ao velho vinil.

Quando entrei para o Liceu estávamos então a iniciar um processo de mudança radical em Portugal que nos iria permitir, segundo se dizia, recuperar os trinta anos de atraso que tínhamos em relação aos restantes países.
A partir daí caímos num turbilhão de mudanças que nos levou do alto da queda de um muro em Berlim, passando pelo desmoronar de um país de que gostávamos de pronunciar a sigla URSS, até ao aparecimento da aldeia global e a tomada de consciência de uma mundialização que nos tornou, segundo me parece, tão habituados e insensíveis a tudo que nos vemos agora, passados trinta anos, num estado civilizacional em que mais ninguém se fascina com o que nos rodeia.

Já que ultrapassámos o ano 2000, deveríamos, como prometido ao longo dessas décadas em que cresci, estar, neste preciso momento, a viver num futuro recheado de tecnologia, povoado de robots e outros dispositivos cibernéticos, a ver passar no céu os carros e os rastos dos foguetões que carregariam os nossos colonos para as cidades lunares e até marcianas, felizes por viver num mundo livre de qualquer doença ou pobreza.
Talvez um estudo aprofundado poderá um dia confirmar que a passagem do milénio criou uma decepção colectiva que nos tornou imunes a novos sonhos e anseios.
As invenções continuam a suceder-se a um ritmo impressionante, os computadores a aumentarem de velocidade de processamento e de armazenamento, os electrodomésticos a se modernizarem e os suportes audio-visuais a melhorarem. A música desactualiza-se à velocidade de vários megabytes  por segundo, os filmes sucedem-se sem que consigamos sequer ter tempo de ver todos os "trailers" e cerca de quinhentos produtos novos aparecem, por ano, nas prateleiras dos novos hipermercados, mas onde está o fascínio de antanho perante a evolução? Mesmo um novo telemóvel ou uma consola de jogos revolucionária atingem apenas os compradores na sua ambição de ter o último modelo e não na beleza da novidade ou da alteração do seu modo de vida.
As grandes invenções tornaram-se pequenas em termos físicos e a tecnologia está bem escondida nos nossos bolsos, pastas, motores ou tabliers de carros.

Portugal terá recuperado, assimetricamente, um pouco dos seus trinta anos de atraso, mas estaremos nós socialmente, intelectualmente e culturalmente aptos para sentir essa recuperação? Tendo o exemplo em casa, vejo que a "portugalite" de minha mãe passou, mas assusta-me ver que o pessimismo de meu pai se transformou nessa nova forma de decepção que parece grassar como uma epidemia entre pessoas da sua idade que se sentem fortemente desactualizadas e destituídas do antigo estatuto que os decanos tinham na sociedade: os detentores do saber e da experiência.
Sabendo, agora, que nos espera, supostamente, um futuro mediano e muito parecido àquele em que hoje vivemos, sinto-me feliz por ter a capacidade de me fascinar com o que já vivi e espero que a actual e futura gerações sejam capazes de proceder a este processo paliativo, porque, por enquanto, não encontro esse fascínio entre nós.
Gilberto Cardoso
Enviado por Gilberto Cardoso em 02/09/2007
Código do texto: T634943

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Sobre o autor
Gilberto Cardoso
Portugal, 48 anos
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