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SANTA PACIÊNCIA!


Os trabalhadores do campo de uma certa região agrícola deste país, cansados de esperar pelo aparecimento de um clima promissor que pudesse favorecer suas colheitas sazonais, e com receio de que o dinheiro arrecadado com as vendas da safra conseguida naquele período não fosse suficiente para suprir as suas necessidades mais prementes, fizeram um apelo ao santo padroeiro da sua região e de cada um deles em particular:

- Meu poderoso santo, se cada um de nós conseguir colher, pelo menos, umas cem sacas de feijão e de milho na safra deste ano, nós prometemos que, ano que vem, não reclamaremos tanto como sempre o fizemos, e de quebra, faremos uma grande novena em Vosso louvor.

Tradicionalmente, São José é o santo padroeiro de muitas cidades espalhadas pelo interior deste país, e alguns lavradores até acreditam que o controle da chuva está sob a responsabilidade dele. Tanto isso é verdade que no mês de março de todos os anos, principalmente antes do dia 19, que é o dia de sua comemoração, eles ficam à espera da chuva para plantar seus roçados de milho e de feijão com vistas às comemorações das festas juninas e julinas. 

De um modo geral, São José sempre tem procurado favorecer a quase todos eles e, com raríssimas exceções, as comemorações das festas juninas e julinas dessa região são sempre bem recheadas de bolos, curaus, pamonhas, canjicas e muito milho assado, o que dá a entender que esse santo é um pouco festeiro também. 

A realização dessa luta da classe de trabalhadores rurais, exercida através do poder emanado de sua fé e de seu esforço laboral, é igualmente conhecida pela grande maioria deles, de que São José é muito amigo de Santo Antonio, o conhecido santo casamenteiro, que é amigo de São João, o popular santo batizador, que é um grande amigo de São Pedro, o santo padroeiro das viúvas e viúvos e grande responsável pela guarda das chaves do Céu.

Comenta-se que, ao longo dos tempos, o tráfico de influências dessa "santa amizade", tem favorecido em muito as pretensões agrícolas dessa classe trabalhadora do campo que, além de acreditar no poder exercido pela sua fé, tem igualmente acreditado no poder de sua força de trabalho.

Deixando de lado os "santos" prolegômenos, vamos conferir de perto se aqueles agricultores tiveram boa safra e se eles, realmente, cumpriram com suas promessas.

Sabe-se que eles eram ao todo quarenta trabalhadores que, reunidos numa micro cooperativa, acharam por bem produzir juntos nesse período de safra e mais tarde decidiram vender metade de todo o produto auferido naquele ano para uma cooperativa um pouco maior. Uma parte da outra metade eles guardaram para consumo próprio e a outra parte foi guardada como uma reserva técnica, a qual deverá ser utilizada somente em situações de eventuais calamidades climáticas. 

Comenta-se, ainda, que a promessa feita para o santo padroeiro São José, naquele ano foi "religiosamente" cumprida e nos anos seguintes também, e que aquela micro cooperativa continuou crescendo e os seus cooperados também.

As festas juninas e julinas continuaram acontecendo todos os anos numa ordem de festividades cada vez mais progressiva como antes não acontecia. Até o município mudou de nome. Antes ele era conhecida como Riacho Grande das Matas e passou a ser chamado de Ribeirão dos Santos Pedidos.

As novenas continuaram acontecendo sazonalmente, as boas safras continuaram acontecendo anualmente e os novos pedidos também. A população urbana prosperou bem, assim como toda a sua população trabalhadora rural.

O progresso da classe trabalhadora ainda continua se fazendo presente naquele lugar, seja pelo poder exercido pela fé de cada um dos trabalhadores em particular, seja pelo esforço despendido no seu conjunto.

Um dos fatos mais positivos vivenciados por essa região é que esses trabalhadores, uma vez organizados, têm conseguido superar todas suas dificuldades mais cruciais e para não perder o costume eles continuam fazendo os seus apelos ao seu santo de devoção e aos demais santos também. Em geral, todos têm conseguido atingir as suas metas anuais e dessa forma têm conseguido viver felizes para sempre. 

Diante de tanto progresso na vida desses trabalhadores e da perspectiva anual em prol da realização de outras tantas promessas, haja paciência, para os seus santos atenderem a tantos pedidos.
Germano Correia da Silva
Enviado por Germano Correia da Silva em 02/09/2007
Reeditado em 22/10/2008
Código do texto: T635483
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Sobre o autor
Germano Correia da Silva
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Germano Correia da Silva

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