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Dois Gregos

Mais de quinze anos separados pela discordância filosófica que unificou os dois, Aresto voltou à porta de seu velho amigo. Pauto teria sido seu professor por muitos anos até que o intelecto nato e a tutoria de Aresto  os igualou. Por anos as conversas duraram horas e as brigas ainda mais. E a interação os fazia contentes. Quando finalmente a discussão chegou à essência do homem, as diferenças fundamentais não permitiram que a interação continuasse. Mas agora uma década e meia mais tarde, no interesse de seu pai, a filha de Pauto teria chamado Aresto para conversar com ele. O velho só assistia televisão o dia inteiro. Quando entrou no quarto Aresto nem foi cumprimentado, como se fosse esperado. Mas os sensos de Pauto estavam intactos.
- Não tenho nada a dizer a você.
- Bom dia pra você também Pauto.
- Eu não vou conversar com você.
- Mas você poderia pelo menos me olhar.
- Estou ocupado.
- Tão ocupado que não pode nem prestar atenção em minhas palavras? Você que adora palavras, e tem tanto prazer em discutir semântica?
- Não tente me enganar Aresto. Você esquece que minha voz já foi mais alta que a sua.
- Talvez. Mais a minha repercuou o mundo.
- Vai ser cheio de si assim na casa de sua mãe. “Minha repercuou” ... se Narciso não tivesse existido você seria um deus grego. Seu ingrato.
- Não, ingrato não. Se fosse ingrato não estaria aqui agora. Soube que você se trancafiou aqui neste quarto. Tirou até a cama , e só fica assistindo televisão.
- E você veio aqui pra me falar o obvio? Eu acho que não. Eu acho que você veio ver se eu tinha descoberto algo novo. Mais alguma coisa que poderia roubar de mim e usar.
- Você esta maluco! E por que assistir esta merda? Você não sabe que esta é a maior forma de controle sobre a mente possível? Que só faz afogar o individuo?
- E o que você sabe sobre o individuo? Fascista.
- Calma Pauto.
- Calma nada, não pretendo aprender filosofia de um charlatão.
- E eu não pretendo te ensinar.
- Então porque esta aqui? Pra me falar que a televisão é o maior instrumento de promulgação e controle das massas. Que a morte da sociedade clássica nasceu com ela e que ajuda a piorar o  paradoxo entre o individuo e a sociedade, uma vez que o individuo precisa dela para se auto definir mas a sociedade mata o individuo. E que esta idéia nasceu com os estudos culturais e os aparelhos de mídia cultural? Bom não precisa. Eu sei tudo isto. Inclusive fui eu que te ensinei tudo isto.
- Eu não vim pra isto. E nem concordo com isto. Não existe nenhum paradoxo nisto. É uma simbiose necessária. Nem acredito na morte da sociedade. O que vim te falar é para parar de se esconder aqui. Olha pra lá. Uma janela. Uma simples janela. Lá fora tem um mundo. Arvores. Pessoas. Crianças.
- Aresto. Você não sabe o que é minha cabeça. Não pode pretender agora me ensinar o que é viver. Eu passei minha vida inteira ignorando o mundo para analisar-lo. Eu li, escrevi, pensei, sofismei. Não sei mais o que é quebrar estes hábitos. E pior, não posso exercê-los.
- E porque não?
- Você conhece a historia de Prometeu? O mortal que roubou o fogo dos deuses e trouxe para o povo. O fogo era a luz, a luz que ele trouxe ou o esclarecimento foi a razão de todos os problemas do mundo. O conhecimento foi o que o escravizou.
- É mais ou menos isto. Mas você esta esticando um pouco.
- De qualquer maneira, o que quero dizer com isto é que o mundo me dói. Não consigo mais assistir estas coisas que me doem tanto.
- Como te doem?
- Eu sei o sofrimento que aquelas pessoas vão passar ou estão passando. Eu sei que aquela arvore não vai ficar ali. Vai ser cortada. E com isso não tenho a coragem de a olhar. Nesta televisão eu sei que por mais ridícula que seja a maioria das coisas vão terminar felizes. É uma ficção, mais pelo menos não sofro com ela.
- Mais você é um homem de ciência Pauto, como pode viver assim se enganando?
- Você nunca me entendeu. Eu não sou um homem de ciência. Você é. Eu sou um homem de necessidade. Queria sempre entender o mundo para melhora-lo. E as teorias que você criou, as que repercutiram o mundo, eu as pensei, mas descartei. Elas não deram em nada. Por isso temos a televisão.
- Não entendi. Quero dizer entendi o insulto. Mas não o resto.
- Não te ofendi. Só quero dizer que a televisão só tem sucesso porque o mundo é imperfeito. Só por isso que corremos para nos esconder na ridicularidade da televisão.
A conversa assim foi por horas. Os dois como antigamente debatendo e tentando provar suas convicções.  E depois de vários insultos e brigas o destino os forçou a encontrarem um meio termo. Ao sair Aresto tinha quebrado a televisão. E Pauto, pos o que restava da moldura da tela em volta da janela.
Pedro Widmar
Enviado por Pedro Widmar em 02/09/2007
Código do texto: T635888

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Sobre o autor
Pedro Widmar
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
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