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Onde encontrar Justica

João Almeida decidiu se mudar para a favela. Apos semanas de conversa com seu porteiro novo Zé, largou seu jornal de sábado na mesa de seu escritório de cinqüenta metros quadrados, pegou seu troféu de golfe amador no Itanhanga, e partiu. Ao passar por suas secretarias falou – to saindo – e desceu para a garagem. Foi correndo pra casa em seu BMW Z5 e falou para sua mulher pegar algumas coisas e se despedir da cobertura na Viera Souto.
- Mulher, hoje nos vamos nos mudar.
A mulher de João, Luisa, olhou para a cara do marido.
- E tem mais, esquece suas coisas aqui.
- Você esta maluco João? Como assim se mudar?
-Maluco? Estava! Não estou mais. Me recuso a viver esta vida indigna. Eu falei com o Zé e ele vai trocar de casa conosco.
- O que??? Você esta maluco João! Ai meu deus, Zé quem? O porteiro?...
Luisa começou a chorar e se trancou dentro do banheiro, mas João pela porta continuou a falar.
- Luisa. Todo dia eu acordo cedo e dirijo meu caro ate o trabalho pensando o tempo inteiro ‘será que hoje vão roubar meu caro, ou me raptar’ depois eu chego ao escritório cheio de preocupação sobre o desempenho da empresa. Depois almoço corrido ao mesmo tempo ligando para casa para ver se vocês estão bem. Depois volto pra casa em engarrafamento extremo o tempo inteiro com minhas preocupações me matando. Tenho ulceras de tanto me preocupar. Enquanto isso o governo mete a mão no meu bolso, pior eu abro meu bolso obrigatoriamente, para financiar deus sabe o que. Chego em casa no final do dia para encontrar contas e ao colocar a chave na porta sempre me preparo para a pior das possibilidades. Não agüento mais! Eu estou cansado de ser um babaca me matando para doar dinheiro abertamente às coisas que não funcionam.
Luisa abriu a porta e disse;
- Calma João você esta falando rápido e eu estou ficando com medo.
- Não tenha medo mulher. Simplesmente faca uma mala.
A mulher de João ficou imóvel sentada na cama.
- Mas e nossas coisas? Nossos confortos.
- Ahhh...não se preocupe meu amor. Confie em mim como sempre confiou.
Luisa se levantou e começou a fazer uma mala. Enquanto isso João ligara para seu porteiro pelo interfone.
- Zé... estamos prontos...é isso mesmo... ta bom entoa vou precisar das chaves.
Com isso a família se direcionou à prudente de Moraes e pegou uma van para sua nova casa. As meninas tiveram o maior choque, e Luisa que não cozinhava a anos demorou para dominar o fogão novamente mas João estava em casa. Todo dia acordava lá pro meio dia e sem camisa andava ate a banca de jornal onde teria trocado o globo por o Dia. Em casa dava um tapa na bunda de Luisa enquanto ela preparava o café da manha e se espreguiçava todo no canto do salão que estava designado cozinha. Suas ulceras tinham desaparecido e na primeira semana ganhou o sorteio dos traficantes. O premio, uma geladeira. De tarde descia para o boteco onde ficava contando historias a tarde inteira. Seus vizinhos o achavam maluco de inventar historias de vôos internacionais e reuniões com o presidente da republica. Mas João não se importava. Não pagava mais impostos. Tinha o pacote gato completo e suas filhas com certeza entrariam para uma faculdade publica pelo sistema de cotas. A  noite chegava em casa para jantar e logo em seguida assistia a novela com a família inteira.
Problemas? Claro que existiam negativos na situação como tiroteios e invasões de outras facções mais pelo menos lá encima João recebia a qualidade de segurança para que pagava. Zero por Zero pelo menos é justo. Ele não considerava por um sequer segundo voltar àquela vida dele. Lá embaixo ele se estressava, não tinha a quem pedir ajuda e pior pagava para se aborrecer. Aqui não. A vida era finalmente bela. Inclusive a única preocupação de João era como continuar evitando o Zé que queria desesperadamente sua vida de volta.
Pedro Widmar
Enviado por Pedro Widmar em 02/09/2007
Código do texto: T635890

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Sobre o autor
Pedro Widmar
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
30 textos (767 leituras)
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