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                       Réveillon

        Não sei se devo, neste cálido fim de tarde em Paraty, escrever sobre o ano que vai nascer daqui a pouco, ou sobre o agonizante 2004.
        Vivo este agradável dilema, enquanto admiro, da janela do meu quarto, nesta bucólica pousada que me acolhe, os pés de acásias que, quase ao alcance de minhas mãos, desfazem-se em mil flores amarelas, imfelizmente inodoras.

        Cheiro forte me vem mesmo é da goiabeira, aqui ao lado, frondosa e aconchegante. Pardais famintos estão, neste momento, beliscando as goiabas maduras, numa  obstinada procura da frutinha mais doce.  Feridas em suas entranhas, a goiabinha cai. E no chão rústico da pousada amiga, esfacela-se e sangra...
        Sob a sombra generosa da folhenta goiabeira descubro minha netinha Catarina. Brinca sob os olhos atentos e carinhosos da vovó Ivone, que se desmancha em sorrisos largos e agradecidos. 

        Vejo tudo isso, e tenho vontade de esquecer o ano que agoniza e o ano que vai nascer.  Mudar definitivamente o rumo dessa prosa, esquecer o Rèveillon, e escrever somente sobre uma tarde feliz em Paraty.        
        Não, não. Que eu guarde, só para mim, este divinal momento... Não devo dividir, com ninguém, estes instantes de felicidade que Paraty me dá, neste cálido crepúsculo fluminense.

        Olho o relógio. O tempo passa, com surpreendente velocidade! 2004 está se despedindo, com extrema raídez!. Começa a escurecer. As serras que me rodeiam, estãos desaparecendo, lentamente, na escuridão do céu. A noite chega de mansinho... No horizonte, já brilham as primeiras estrelinhas.

        E 2004? Foi um ano bom.  Não foi dos piores.
        Contratempos aconteceram? Sim. Nunca os revelarei. Meus queixumes, quem por eles se interessa?
Ninguém de mim se apiedará, ao ler os meus lamentos...
        Bons momentos existiram? Sim.         
        Cito dois: o dia em que completei 70 anos de idade, e o nascimento, no dia 13 de julho, do meu netinho Davi, o irmãozinho da Catarina. Hoje, boa parte do dia passei com ele. 

        E 2005?  Escrever o quê sobre o ano que ainda estar por vir? Por enquanto, nada. Estarei, apenas, pedindo a Deus que se confirmem pelo menos parte dos votos de "Feliz Ano-novo!" que, até agora, quase meia noite, já recebi.  Oh! Desejaram-me tanta coisa boa! Se tudo ocorrer como querem meus amigos, não hesitarei em pedir aos deuses que 2005 nunca acabe...

        A cada Réveillon, digo que gostaria de ser um vidente. Saberia, de antemão, o que iria acontecer-me, no novo ano. 
       Conhecendo, previamente, meu futuro, não incomodaria Iemanjá com meus pedidos, ainda que lhe ofertando espelhos, sabonetes e palmas de Santa Rita.
       Nem precisaria gastar uma boa grana com aquela afamada cartomante, sempre disposta a revelar ao seu desconfiado cliente alentadores prenúncios...  
       Mas, ao mesmo tempo, fico a me perguntar se seria  legal saber de tudo antecipadamente. Sem surpresas, meu dia-a-dia seria, talvez, de uma abominável monotonia...
        Parece melhor deixar que as coisas aconteçam como o Criador escreveu. E é em Suas mãos que ponho o meu futuro, no momento em que os fogos de artifício explodem no céu de Paraty, saudando 2005.


                          * * *

      Nota - Esta crônica eu a escrevi, mas não a publiquei.
 Faltou-me espaço e oportunidade. Ela permaneceu guardada durante todo esse tempo, no Arquivo das minhas boas lembranças.  Se criei no meu site o "Cantinho da Saudade", por que  deixá-la escondia.  Por isso, publico-a, agora.  E o faço como se tivesse acabado de escrevê-la, sob o céu crepuscular da meiga Paraty.  
         
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 03/09/2007
Reeditado em 19/02/2008
Código do texto: T637083
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Sobre o autor
Felipe Jucá
Salvador - Bahia - Brasil
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Felipe Jucá

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