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Imigrante

Demorei para  entender que não sou nada, que não tenho forças, que sou analfabeta, muda e surda.

Nesses dez anos vivendo no Japão, não consegui dominar o idioma; assistindo meu esposo eu  mesma e  meus amigos sermos explorados.

Trabalhamos muito, sem nenhum direito e as leis trabalhistas não são cumpridas. Sabemos que ela existe, mas não é aplicada ao estrangeiro latino. Por não dominar o idioma permanecemos na ignorância dos nossos direitos.  Muitos empregadores japoneses conscientes da nossa "ignorância" nos enganam, nos exploram. Muitos preconceitos enfrentamos no dia-dia.

Nesses últimos dois anos os estrangeiros  uniram-se e exigiram do governo japonês que a Lei seja cumprida, muita coisa melhorou. Com o apoio da mídia brasileira instalada em Tóquio e com a atuação do Ministério do trabalho e a parceria do Sindicato dos trabalhadores, no entanto, o trabalho de  conscientização ao estrangeiro é lenta, a  filiação ao Sindicato é inexpressiva, muitos ainda resistem às ameaças dos empregadores, receosos e com medo, deixam-se explorar.
 

Muita situação complicada e constrangedora já vivi. A mais recente foi quando resolvemos comprar um imóvel. Foram dez anos pagando aluguel, dinheiro sem volta.
As casas  são caríssimas, mas teríamos privacidade, maior espaço, mais conforto e autonomia. Visitamos algumas construtoras, fomos bem recebidos, mas quando percebem que não falamos bem o Japonês e que temos condições financeiras para assumir a dívida, eles tentaram arrancar nosso couro. Para nós os juros são mais altos, empurram-nos os imóveis encalhados, próximos à linha do trem, próximos às  torres de alta tensão ou locais muito afastados.  Os preços são abusivos, praticamente o dobro que um japonês pagaria.

Não falamos a língua corretamente, mas tenho certeza que eles não lêem nas nossas testas que somos otários. Tentamos um financiamento  nos bancos japoneses e apenas um único banco concedeu o empréstimo, os juros altos demais. Insistimos nos bancos que possuem juros menores e negaram porque somos estrangeiros. No meu caso por eu não ter nenhuma descendência japonesa. Isso é preconceito, pois trabalho, pago meus impostos, não tenho dívidas e apresentei renda e documentos suficientes para que meu cadastro fosse aprovado em qualquer instituição bancária.

Revoltada e disposta a denunciar o preconceito, fui novamente vencida. Aconselhada pelos amigos, pela família a permanecer calada, continuar morando na caixinha de fósforos, vivendo com rótulos e sendo vítima do preconceito.
Agora tento iniciar minha luta sozinha, não posso desistir dos meus direitos.
Enquanto o medo  persisitir, seremos sombras, seremos nada.


Assim vivemos nesse país, somos a força de trabalho, movimentamos milhões de dólares, a economia cresceu graças à mão-de-obra do imigrante. Não temos férias remunerada, não temos décimo terceiro, nem décimo quarto. Somos considerados apenas mão-de-obra, jamais "Humanos". Desprezam-nos como ratos, não se relacionam conosco, raramente fazemos amizade com japoneses. Mas é aqui que vivemos, aqui criamos nossos filhos, aqui ganhamos nosso pão de cada dia.

Foi assim quando japoneses foram ao Brasil há 100 anos trás, foram explorados, humilhados, mas venceram, plantaram suas raízes no Brasil e hoje seus filhos e netos, fazem o caminho de volta ao solo Japonês. O laço sanguíneo é desprezado. Filho de estrangeiro nascido no Japão, jamais será japonês. Os pais devem registar os filhos no consulado do seu país de origem.

Americanos são bem recebidos, têm privilégios. Não trabalham em fábricas como nós e não são classificados e rotulados como “gaijin” ou “Dekaseguis”. Foram eles que jogaram a Bomba atômica no país, foram eles que tomaram o país e aqui permaneceram por anos maltratando os japoneses. Porque japoneses tratam os americanos como Deuses, como superiores????
Os brasileiros que aqui vivem são  filhos, netos, bisnetos de japoneses, não mataram, não roubaram, nas suas veias corre o sangue japonês e eles nos viram às costas, nos maltratam, humilham, desprezam.
Quantas vezes passeando pelo shopping alguns japoneses abordaram-me falando inglês, achando meus filhos lindos, por terem a pele clara, os olhos verdes e os cabelos loiros, pensam que sou americana, e quando digo que sou brasileira,  sem qualquer explicação deixam-me falando sozinha.

Somos abelhas na chuva. Trabalhamos muito para sobrevivermos nesse país. Aqui o custo de vida é caríssimo, mal sobra para pouparmos. Quantos brasileiros deixaram sua família no Brasil imigrando com o sonho de sustentá-los e acumular um pouquinho para realizar o sonho da casa própria. Muitos passam necessidades. Outros que aqui chegaram foram  explorados aí mesmo no Brasil, pelas empreiteiras, que lhes financiaram as passagens e  depois são obrigados a trabalharem em fábricas onde o trabalho é pesado demais, os apartamentos caros demais, trabalham três à quatro anos para pagarem as passagens e nesse período não conseguem acumular. Os passaportes ficam retidos com os empreiteiros até saldarem a dívida. Isso é escravismo, porque são livres e poderiam buscar trabalhos melhores e com maior remuneração. Ter a liberdade de ir e vir.
Muitos não podem regressar ao Brasil porque a passagem aérea é muito cara. Muitos não conseguem trabalho porque não falam nihongo. E muitos que conseguiram acumular,  puderam regressar ao Brasil para terem a casa, o carro e um negócio próprio (realizar o sonho e o objetivo) são assaltados, seqüestrados e mortos. Quantos morreram por apresentar traços nipônicos. Explorados nas imobiliárias, nas revendedoras de veículos, nas escolas etc,etc.

Sim a situação é delicada e séria. Nós queremos regressar ao nosso país, nossas raízes estão aí. Mas queremos continuar vivos, viver com dignidade e qualidade de vida.
Sim muitos de nós optamos em viver no Japão, nossos filhos recebem a educação japonesa, falam, lêem e escrevem o japonês. Mas não são respeitados e possivelmente serão operários, jamais  médicos, engenheiros, arquitetos, dentistas, veterinários e etc. Mesmo cursando à Universidade as portas do mercado de trabalho estarão sempre fechadas ao Latino americano. Porque aqui também estão bolivianos, peruanos, chilenos.

A única arma é a denúncia,  usar a escrita, a mídia e contar nossa história para que o mundo preste atenção à barbáries e preconceitos que ainda persistem no meio social, não só do  japonês, mas americano e europeu. Ser imigrante foi escolha de cada um, mas não podemos aceitar o desrespeito ao Ser Humano. A Lei existe e devemos exigir que ela seja cumprida. Precisamos mudar, transfomar nosso pensar, lutar pelos nossos direitos.



Sonia Lupion Ortega Wada
Enviado por Sonia Lupion Ortega Wada em 04/09/2007
Reeditado em 24/09/2007
Código do texto: T637555

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Sobre a autora
Sonia Lupion Ortega Wada
Tsu - Mie - Japão, 53 anos
333 textos (57409 leituras)
2 e-livros (125 leituras)
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Sonia Lupion Ortega Wada