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Assombração


Mais ou menos às 17h30 o técnico da máquina de lavar roupa chega para ver o que acontecia com minha problemática máquina. Atendo-o no interfone e peço para esperar. Com o controle remoto sobressalente (o outro fica no carro), de dentro de casa, abro o portão automático da garagem, por onde é mais fácil sair caso ele queira levar a máquina para a oficina, como aconteceu da última vez. Abro a porta do corredor externo, por onde ele entra. Mostro-lhe a máquina. O problema desta é que, em funcionamento, quando chega a um determinado ponto, faz transbordar a água. Depois de alguns testes, o técnico constata que o defeito deve estar no timer, que precisa ser trocado. Diz que vai verificar se o dispositivo existe na oficina e depois me liga. Não vai ser preciso levar a máquina. Ele vai embora. Fecho a porta do corredor externo por onde ele entrara e volto para dentro de casa.

É noite e deito-me na cama às 23h30. Estou dormindo o sono dos justos quando um barulho insistente me acorda. É a campainha do interfone tocando. Olho para meu rádio relógio digital sobre a mesinha de cabeceira, mostrando seus números vermelhos no escuro. Duas horas da madrugada. Sonolento, me pergunto quem será a essa hora. Não podem ser pedintes, pois eles não ficam a essa hora perambulando pelas ruas. Se já são praticamente escorraçados de dia, imagine se ficassem perturbando os cidadãos à noite, não seriam ousados a esse ponto. Não deve ser nenhuma emergência com relação a parentes, pois se eles tivessem alguma, contatar-me-iam por telefone. Estou tão confortável, estamos no inverno, lá fora está frio, estou com sono. Decido que não vou atender, apesar da ligeira curiosidade que me assalta. Logo vão parar. Tento voltar a dormir. Quase consigo, mas a campainha continua tocando, insistente, acordo novamente. Mas será que não podem me deixar em paz? E se meu sono fosse mais pesado e não conseguisse acordar? Perfeitamente justificável, ninguém é obrigado a acordar de um sono na madrugada para atender a um interfone. Pelo menos acho que a maioria não consegue acordar numa circunstância desta. Portanto, faz de conta que não consegui acordar e pronto.

No fundo, acho que, pelo horário, existe um certo receio do que vou encontrar. Às vezes, de dia, quando vou atender a um chamado insistente do interfone, ninguém me responde, vou lá fora verificar e não encontro ninguém no portão. Bem, de dia, isso pode ser aceitável, alguém tentou com insistência, desistiu e foi embora. Mas e se isso acontecer às duas horas da madrugada, naquele horário em que não se vê vivalma na rua? Atendo, ninguém me responde, vou lá fora e não há ninguém? Não é assustador?

Não acredito em assombração ou espíritos. Mas um episódio que aconteceu já há alguns anos me deixou com a pulga atrás da orelha. Uma bobagem, mas não me esqueço. Acho que era uma festa de confraternização ou comemoração de alguma coisa em casa. Estavam presentes vários parentes e crianças. Houve um momento em que eu passava pela sala de jantar e visualizei a sala de visitas. Algumas crianças dentro da sala brincavam ou conversavam. Uma delas, de costas para mim, imóvel, voltada para a janela, magra, longos cabelos escorridos, destacava-se das demais, não se misturava às outras. Apenas vi a cena de relance, sem me prender a ela e continuei com o que estava fazendo. Depois que a reunião acabou e todos foram embora, lembrei-me da cena. Quem seria aquela menina? Puxei pela memória, a figura dos longos cabelos escorridos era-me familiar. Então me lembrei, era uma das minhas sobrinhas. Ao mesmo tempo, porém, veio-me a lembrança de que ela, por algum motivo particular, não pudera vir à festa. Então, quem teria sido aquela menina da sala? Recapitulei várias vezes todas as meninas que estiveram na festa, mas nenhuma tinha cabelos compridos como os que eu visualizara. Que estranho! Uma assombração, um espírito? Bem, esse foi o acontecimento mais próximo a que cheguei em matéria de coisas sobrenaturais.

Talvez esse episódio, incutido no recôndito da minha memória, me levasse a temer atender, àquela hora, ao interfone. Prefiro jogar às favas a curiosidade e ficar no conforto do meu quente cobertor. Nenhum risco de encontrar alguma assombração, qualquer coisa não consegui acordar e pronto, estou justificado. Os toques insistentes cessam e posso enfim me entregar ao meu sono interrompido, sem nenhum peso na consciência.

De manhã, ao acordar, lembro-me do ocorrido e fico na cama fazendo conjecturas. Quem estaria àquela hora me chamando pelo interfone e por quê? Não conseguindo imaginar nenhuma resposta racional, vem-me uma hipótese fantasiosa de filme policial: uma pessoa passando pela rua ferida de morte por causa de um assalto consegue num extremo esforço chegar até o portão da minha casa e acionar o interfone, pedindo socorro. Eu não atendo e ela morre. De manhã, encontro um cadáver no portão. Vou passar o resto da vida com sentimento de culpa. Que imaginação! Por dentro rio dessa hipótese absurda. Talvez fosse factível num daqueles bairros periféricos violentos de São Paulo. Mas não aqui, um pacato bairro de classe média de cidade do interior. Não, a hipótese é absurda mesmo. Diante dela, é mais confortador pensar em assombração.

Logo ao acordar, antes de sair para a minha caminhada habitual, faço alguns exercícios de alongamento ensinados pelo meu ortopedista. Ao sair para a caminhada, pela porta de entrada da casa, a primeira coisa que percebo, surpreso, é o portão automático da garagem escancarado. Ficara aberto a noite toda. Rememoro na minha mente o dia anterior e, de imediato, me lembro da vinda do técnico da máquina de lavar. Eu abrira o portão automático para facilitar a saída da máquina, mas como o técnico não levara a máquina, esquecera-me de fechar o portão.

Isso explicava agora os chamados insistentes do interfone. Algum ser caridoso passou por ali na madrugada, talvez de carro, viu o portão aberto, parou o carro, desceu e tocou o interfone para avisar-me do meu descuido. Coitado, insistiu muito, mas não adiantou, pois na casa havia um morador folgado, confortável dentro de seu cobertor, assustado com possíveis assombrações.

Que lição se pode tirar deste episódio banal? Bem, creio que ele prova que assombrações não existem. Elas são frutos da nossa fértil imaginação, insuflada por acontecimentos inexplicáveis do passado, não resolvidos por falta de atenção maior aos acontecimentos ou falta de curiosidade. Isso nos leva a um questionamento mais amplo sobre nossas crenças. Devido a essa angústia existencial interior que carregamos decorrente do fato de não sabermos quem somos, servimo-nos da nossa capacidade de imaginação para criar  complicadas fantasias para expurgá-la, escondendo-nos dentro de um cobertor cômodo e protetor, cheio de certezas místicas sobre nossa condição. Temos medo da verdade porque ela é inquietante. O quanto de nossas crenças podem estar arraigadas por culpa de nossa deliberada negligência para investigar essa verdade? Mas será ela tão terrível assim? A procura da verdade pode levar-nos a descobrir que esta talvez não seja tão feia. Pelo contrário, como quando encontrei o portão da garagem aberto, levando-me, por inferência, a uma conclusão racional que dissipou minhas conjecturas fantasiosas, talvez se sairmos de nosso cobertor protetor e formos lá fora tentar desvendar o mistério maior da vida, encontremos também um portão redentor que nos revele que existe, afinal, uma verdade simples, cristalina, fácil de ser aceita e reconfortante.
 

     




Paulo Tadao Nagata
Enviado por Paulo Tadao Nagata em 04/09/2007
Reeditado em 18/01/2017
Código do texto: T637913
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Paulo Tadao Nagata
Marília - São Paulo - Brasil
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