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Aeroporto zero hora.

AEROPORTO ZERO HORA

       Aeroporto, os ponteiros encontram-se sobre o número doze e, incoerentemente, é zero hora. Saguões e corredores semiabandonados, só seguranças transitam em suas rondas.
       Há poucos minutos o movimento era intenso, com pessoas apressadas, buscavam os últimos transportes. Agora, zero hora, um gigante vazio.  Mas como num passe de mágica, baldes e vassouras, torneiras e motores, movimentam-se. O alarido atinge nossos tímpanos. Palavras corriqueiras formam frases diferentes daquelas ouvidas o dia inteiro. É uma nova linguagem, compreensível, afeita à sociedade e que guarda a identidade dos seus pares.  Ligue a torneira; dá, o pano; traga o detergente?... Tudo envolto no aroma de sabões e detergentes. São os funcionários da higiene de todos os espaços do Aeroporto. A partir da zero hora são eles os comandantes de vôos, as aeromoças que atendem as necessidades dos passageiros, os controladores dos radares dos banheiros, das salas de espera, das placas indicativas, pisos e tapetes. Enfim, nada escapa aos olhos atentos e especializados desses indispensáveis personagens.
       Os altos câmbios, dólares, francos, marcos, libras, entre outros, curvam-se à realidade do real. Transações monetárias despencam na bolsa e atingem o patamar da zero hora. Cinco ou dez reais são negociados sem juros, moras, ou avais, só com palavras. Negócios como a compra do leite, fraldas ou mamadeiras, apenas necessários, nada de mordomias. - Atenção equipe dois: dirija-se aos guichês de venda de passagens, munida de detergente e sabão em pó. Manchas observadas no piso dos guichês da TAM e da VARIG; portão onze solicita a presença da equipe de coletores de lixo, com sacos plásticos para reposição; funcionários responsáveis pela limpeza dos tapetes de borracha ocupem o saguão principal...
       As primeiras horas são movimentadas e antagônicas àquelas que completarão o mesmo dia.
       Eu ali estava, com minha esposa, observando aquela madrugada sem sonhos.
       Chegando no aeroporto pouco antes da zero hora, ali ficamos aguardando o próximo vôo. Sair pelas ruas daquela metrópole seria um risco. Foi nossa melhor decisão, pois além de evitarmos perigos, recebemos uma verdadeira aula de relações humanas.
        O aeroporto à luz solar, tinha pessoas frias e agitadas que transitavam rapidamente. Entreolhavam-se fugazmente, formavam pequenos grupos e pouco se entendiam. Suas roupas variavam das convencionais às mais sofisticadas, mas era notória a preocupação de deixar à mostra as marcas de famosas confecções.
       Ao contrário, as pessoas da zero hora usavam o mesmo tecido, cor e figurino. Não havia a preocupação de exibirem o exterior porque se conheciam por dentro.
       Parecia-nos viver num outro mundo. Numa realidade saudável e humana, onde o amor e o respeito fluíam suavemente, sob o manto da paz, que gostaríamos de ver debruçar-se sobre toda a humanidade, em todas as horas e em todos os lugares.



Condorcet Aranha
Enviado por Condorcet Aranha em 26/10/2005
Código do texto: T63821

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Sobre o autor
Condorcet Aranha
Joinville - Santa Catarina - Brasil, 76 anos
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