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CONFERIU O TROCO, FILHA?

CONFERIU O TROCO, FILHA?
Marília L. Paixão

Do meu tempo de infância são poucas as recordações que tenho da minha irmã mais velha. Foi a única a nos abandonar para ir estudar num internato. Depois lembro vagamente de uma visita sua com um namorado, barbudo!  Se formou, para casa voltou e me vem a lembrança de outro namorado, quase loiro. Ela era tão bonita! Participava dos concursos de rainha da primavera. Ela e a outra irmã mais velha. As irmãs mais velhas são as que nos abandonam primeiro. Antigamente, então, tinha um tal de casar cedo... Mas ela nem tinha se casado e tinha se mandado para o exterior. Era década dos 70 e os jovens já tinham  na cabeça um tal de “Estados Unidos” ela, tão inteligente, que não ia ficar fora dessa. Outra vez nos abandonou. Por lá, sim se casou! Encheu-se de vida ativa, de fotos e alegria e com dois filhos lindos terminou por com eles presentear o mundo inteiro. Uma época estive lá com ela por ocasião do nascimento do primeiro deles. E nesta minha única ocasião de conhecê-la mais de perto, conheci muito sobre ordem, organização e disciplina. As coisas corretas, das morais, as mais certas... Tudo isso de sobra. Será que do orfanato? Até hoje não consigo na prática vivenciar isso direito. Não me considero super-organizada. Da minha mãe poderia também ter herdado isso, ela é tão organizada com tudo! Mas acabei herdando mais coisas do meu pai. Quanta alegria nos traz uma bebida! Quanta arte pode nos trazer algum prazer! Meu pai que só brigava por eu não conferir o troco. Meu pai que contava o fruto das vendas e colocava nos bolsos. Para mim, meu pai era preocupado e alegre. Minha mãe era muito correta e triste. E na década dos 70 com minha irmã recém-formada, de volta do orfanato, estava na cidade já empregada. Eu lá, a caminho da padaria, de vestidinho, dinheiro na mão... E ela toda moça, toda bonita voltando do trabalho, e era escola... Veio logo em minha direção:
 - Onde você está indo com este pé no chão?
 Sua cara não estava de brava, mas a voz não escondia a recriminação. Olhei para os meus pés. Estavam os mesmos de dentro de casa! Estavam sem nada. Nem teria prestado atenção. Mas ela prestava atenção em tudo. Quanto mais eu a via mais eu sabia que tudo ela notava.Bem que ela podia não ter abandonado a gente...
- Estou indo comprar cerveja pro pai.
- E mãe sabe que você está na rua descalço?
- Sabe, não! Pai mandou eu vim e eu vim.
- Eu não quero mais te encontrar na rua sem sandália e muito menos sem pentear os cabelos.
  Fica parecendo esses pobrezinhos de rua, nem parece que é uma menina bonita.
E ela se foi. E eu fui buscar a cerveja e só conseguia trazer duas e com muita dificuldade. O moço me dava as duas cervejas e depois me dava o troco. Chegava em casa com a cerveja quase escorregando das mãos e ele perguntava.
  – Quanto é que sobrou?
 – Não sei!
 - Não conferiu o troco?
 - Onde já se viu não conferir o troco?
 - Tem que conferir o troco, filha!
Mas eu ainda estava pensando era nas últimas palavras da minha irmã. Que sem pentear cabelo eu não seria uma menina bonita. Bonita para mim era ela, a minha irmã mais velha.

Marília L Paixão
Enviado por Marília L Paixão em 06/09/2007
Código do texto: T641084

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Sobre a autora
Marília L Paixão
Pouso Alegre - Minas Gerais - Brasil
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Marília L Paixão