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Epifania. Concordo com a Sandy, essa palavra é muito interessante. Clarice Lispector usou essa palavra, que significa um momento de estalo, onde você para e percebe que algo mudou, uma coisa repentina que acontece algumas vezes na vida de todos.
Na minha vida está acontecendo muito ultimamente. Primeiro que estou crescendo, não só nas pernas, mas minha cabeça está mudando de opinião como quem troca de papel higiênico. Acontece é que, minha inocência se perdeu, e cá pra nós, sinto falta dela. Há muito tempo eu acreditava que existia papai Noel, que o amor era pra sempre, e acredito ainda e concordo com Nelson Rodrigues, só é amor enquanto eterno se não é eterno então não é amor. Acreditava que eu ia ter os mesmo amigos pro resto da minha vida. Que a Xuxa usaria aquele cabelo amarrado pra sempre, que a Eliana e a Angélica sempre cantariam músicas infantis, que Michael Jackson sempre faria sucesso, que a Britney Spears seria a nova Madonna, que he-man existia e era casado com she-ra, que o Batman morava embaixo da minha casa, que lobisomen e lobo mau existiam e, que se eu brincasse com sombra a noite veria assombrações. Acreditava que todo ser humano era bom, que o orgulho, a ganância ou a corrupção eram de comer ou de por no cabelo.
Acreditava em fadas e duendes, acreditava que o homem do saco e o bicho papão viriam me buscar se eu não dormisse ou não comesse. Acreditava que Dom Pedro declamou a Independência pensando em realmente fazer jus a isso, depois de subir a serra montado num cavalo branco. Acreditava que era fácil se casar, ter uma casa e constituir família. Acreditava que o governo não pegasse tanto no nosso dinheiro. Acreditava que entrar na faculdade era mamão com açúcar.
Acreditava que não existia professor acomodado, que existiam governantes que se interessavam mais na população do que no dinheiro. Aliás, pensei que o dinheiro só servisse pra comprar balas, chicletes, pirulitos, chocolates e coisas similares. Ah é, aprendi que dicionário, lista telefônica e jornal são coisas importantes e que não são pra rabiscar. Acreditava que bebês estavam expostos em prateleiras de supermercado, acreditava que se eu quisesse eu podia amarrar uma faixa na minha cabeça e virava o Rambo. Acreditava que as pessoas sempre falariam a verdade. Acreditava que todos gostariam de mim, só por que eu nunca fiz mal a ninguém. Acreditava que certas coisas só aconteciam com os outros e não comigo. Acreditava que beijo de língua era uma coisa nojenta. Acreditava que todo mundo acreditava em Deus.
Acreditava que o mundo era cor-de-rosa e que o céu era azul por que Deus era homem. Acreditava que Jornal Nacional era chato e que não servia pra nada. Acreditava que todas as minhas idéias seriam aceitas e que quando eu decidisse, iria acontecer do jeito que planejei. Acreditava que eu tinha um amigo invisível, acreditava que tinha uma estação de rádio e que norte-americanos me ouviam. Acreditava que ninguém passava fome, que doenças eram coisas pra pessoas desobedientes, e que eu nunca ia morrer.
Eu hoje. Acredito que sou homem, acredito que cresci, acredito que eu sonho, acredito que eu posso, acredito que eu sei o que é certo ou errado, acredito que ando certo, acredito em Deus, acredito que pessoas existem de todas as formas, acredito que amigos são só nossos pais, acredito que a vida surpreende, acredito que pessoas prepotentes conseguem oportunidades de cinco minutos, acredito que pessoas confiantes e batalhadoras conseguem tudo o que querem. Acredito em mim. Pegue sua senha e aguarde na fila.
Gustavo J Barreto
Enviado por Gustavo J Barreto em 07/09/2007
Código do texto: T642266
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Gustavo J Barreto
Mauá - São Paulo - Brasil, 28 anos
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Gustavo J Barreto