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O SACRAMENTO

Depois de dois anos sem um cura, a cidadezinha recebeu padre Nonato para gerenciar a filial do vaticano. Aquele povoado seria uma espécie de castigo para o sacerdote que tinha aprontado poucas e boas em Juazeiro: traçou quase todas as “filhas de Maria” e, num descuido, engravidou a comandante da “Cruzada de Cristo”, filha caçula do Coronel Lisboa. Dom Giovani, o bispo, esperta e rapidamente, convenceu o sacristão João das Oiças a assumir a paternidade da criança (bode ou pinto expiatório?) e mandou o padre pra bem longe a fim de reparar seus erros frente a Deus e ser esquecido por aquelas bandas.
A vocação de padre Nonato, há muito, tinha ido pro brejo. Ele, na verdade, se aproveitava do sacerdócio para levar vida folgazã, tranqüila e, vez por outra, abater uma ovelha do seu rebanho. Naquela cidade não seria diferente; logo o padreco estava na vida que pediu a Deus. Até a mãe de Josué, seu sacristão oficial, cedeu ao charme e poder das cantadas do reverendo: “Eu vi coisas divinas!” comentou a carola  com comadre Joaninha.
A paróquia era muito pobre, os dizimistas eram poucos e os óbulos quase inexistentes; assim, sempre faltava dinheiro para as despesas fixas da igreja e os gastos exorbitantes do sacerdote. Este negociava com os interessados a celebração de missas e o ato de ministrar sacramentos; recebia como pagamento vacas, porcos, cabras, carneiros, sacos de arroz, etc.
Arnaldinho, três anos de idade, ainda não era batizado; dona Marocas, sua avó, tremia de medo ao pensar que o netinho podia sucumbir numa disenteria qualquer  e ficasse no limbo por ser pagão. A pobrezinha tomou coragem, colocou uma velha galinha pedrês debaixo do braço, meia dúzia de ovos dentro de um saco de papel e dirigiu-se à igreja para negociar o batismo do menino. Josué atendeu-a e, ao saber que tudo o que ela podia pagar pelo sacramento era aquela galinha magra e seis ovos mirrados, disse-lhe:
- Olhe, dona Marocas, um sacramento desses toma muito do sagrado tempo do padre Nonato; ele não vai aceitar essa miséria pelo batizado, não.
A pobre viúva contra-argumentou...; implorou para, pelo menos, ouvir o padre dizer-lhe isso. O sacristão mostrava-se irredutível quando o pároco entrou na sacristia e, sensibilizado com a velha, informou-lhe que aceitaria aquela oferenda: “Mas por favor, não diga nada pra ninguém..., senão vai desvalorizar o meu serviço.”
O sacristão chamou padre Nonato num canto e segredou:
- Mas, padre..., dessa maneira o senhor tá fazendo o nosso serviço quase de graça... O senhor vai receber essa galinha goguenta e meia dúzia de ovos pelo santo batismo?
- Olha, Josué, deixe comigo; eu sei o que eu tou fazendo... Além do mais: batizado feito por um padre como eu e ajudado por um sacristão safado que nem tu tá muito bem pago por uma galinha e meia dúzia de ovos...

e-mail: zepinheiro1@ibest.com.br
Aroldo Pinheiro
Enviado por Aroldo Pinheiro em 08/09/2007
Código do texto: T643345
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Sobre o autor
Aroldo Pinheiro
Boa Vista - Roraima - Brasil, 63 anos
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