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Meninas Boazinhas

Meninas Boazinhas não gritam. Meninas Boazinhas não xingam e não perdem a paciência. Ao menos não perdem com muita freqüência e talvez o façam quando ninguém as está observando. Não sei. Diria que são como o Papai Noel. Sempre sorridentes, compreensivas e ainda crêem que o mundo é mesmo uma maravilha.

Meninas Boazinhas acreditam em Coelho da Páscoa e procuram os ovinhos de chocolates nas manhãs de domingo. Meninas Boazinhas não mascam chiclete, não roncam e não ficam com dor de barriga.

Uma vez encontrei uma menina boazinha. Genuína. Falava baixinho. Tinha todos os fios do seu lindo cabelo no lugar. Parecia que dançavam valsa enquanto o vento passava e deixava - apenas o meu cabelo - completamente detonado.

Tinha cheiro de rosas por onde passava. Usava as cores da moda e tinha sempre um sorriso pra ofertar. E mesmo quando mais parecida com as meninas mais malvadas – as normais de todo dia – ainda conservava debaixo das doces varandas dos olhos, um ar meio anjo, meio flor, pra todas as coisas da vida.

Por um bom tempo acreditei que a vida de uma menina boazinha era mais tranqüila e menos cheia de pequenas depressões e desfiladeiros. Ingenuidade. Inocente observação das gentes que gostariam de passar - pelo menos - poucos minutos nessa atmosfera em que o mundo a louva pela sua suave existência.

Meninas Boazinhas também ficam de cara amarrada de manhãzinha. Já trabalhei com uma delas. E, por mais incrível que possa parecer, também sofrem de TPM e pelas coisas da vida que não dão certo – sim, as coisas nem sempre dão certo pra elas da mesma forma que atingem nós, as outras pobres mortais.

Descobri, inclusive, que meninas boazinhas podem mentir pros namorados, chorar de raiva e quebrar coisas. Essa minha amiga já quebrou muitas coisas. Contudo, ao contrário das muitas que precisam limpar a bagunça depois, tem sempre alguém que se compadece da coitadinha e limpa por ela. É uma pena... Limpar o estrago faz parte da terapia,  algo como um ritual onde se vai limpando a vida enquanto se junta a sujeira espalhada.

Não tenho inveja das meninas boazinhas. Eu sou uma menina boazinha também. Quando eu quero incorporo a pose, o jeitinho meigo, o olhar quase sincero e apaixonado. Esbanjo um caminhar flutuante e até uso perfume de rosas!

Dura pouco a encenação. Não muito depois de iniciar, me perco em “pitis” e chiliques improvisados pra disfarçar a minha falta de jeito em lidar com as coisas. E quem consegue lidar com esse mundo que se reinventa todos os dias?

Pra não ser esnobe, digo com muito gosto, que somos todas meninas boazinhas bem lá, lá no cantinho escuro da alma. Mas com uma pitada de pimenta pra animar as coisas, já que nas minhas veias não correm leite.
Isadora Pitanga
Enviado por Isadora Pitanga em 11/09/2007
Reeditado em 11/09/2007
Código do texto: T647794

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Sobre a autora
Isadora Pitanga
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 36 anos
74 textos (8581 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 17/08/17 01:24)
Isadora Pitanga