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UM HOMEM NO SÓTÃO

UM HOMEM NO SÓTÃO

OSNI de assis e SILVA

Era mesmo um sótão. O que nos intrigava era aquele homem que morava lá. Víamos sua silhueta através do vidro da janela. Ficávamos observando. Praticamente o dia todo, de quando em quando, víamos sua imagem passando detrás da janela. Por isso, concluímos que o sótão não servia de depósito. Abaixo da cobertura de telhas, pé direito reduzido, aquele homem passava a maior parte do tempo. Ninguém pelos arredores sabia qual sua profissão, nem nós. Doente não era. Nem inválido. Chegamos a vê-lo várias vezes. Voltava sempre com embrulhos nas mãos. Era simpático. Alto, nem magro e nem gordo. Lembrava-nos nossos ídolos dos antigos e saudosas faroestes. Seu andar era calmo, sabia o que fazia, onde ia e para quê.
Não conversava com ninguém. Na vida, falava o necessário. Por isso os habitantes do lugar também não o conheciam. Sua fama, de o “homem do sótão”, corria como rajadas de vento!
Nós, as crianças curiosas, temíamos o “homem do sótão”. Sempre tínhamos medo do que não conhecíamos. Os residentes na vila faziam sua fama como “homem sistemático”, e, nós, tínhamos uma versão própria, “o fantasma do sótão”. E assim ele ia sendo conhecido, paragens afora, que nos pareciam não terem fim! A versão, “o fantasma do sótão”, alcançava mais longe e mais rápido. E a fama tomava outros rumos: lobisomem, bruxo, vampiro, mula sem cabeça e de boca em boca surgiam novos nomes! Histórias macabras e de terror, a respeito do “homem ou fantasma do sótão” surgiram com impacto. Ninguém mais segurava a “barra” do pobre coitado!
O delegado que era Juiz de Paz, coronel do lugar, coroinha da igreja e mais atividades a seu cargo, resolveu desvendar o caso. Já era tarde. Contra a “língua” do povo não há remédio. E a versão certa, oficial, foi para o arquivo morto do Delegado.
O fantasma do sótão que a imaginação popular, de boca em boca, transformou em lenda sem fim, nada mais era do que um artista plástico, trabalhando em tempo integral, na solidão e no silêncio de um sótão.


Karuk
Enviado por Karuk em 29/10/2005
Código do texto: T64983
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Sobre o autor
Karuk
São João Del Rei - Minas Gerais - Brasil, 76 anos
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