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BOMBEIROS E PROFESSORES



     Aparentemente não há nada que os aproxime. Mas isso fica somente nas aparências mesmo. Eles têm muitas coisas que podem ser comparadas. Os bombeiros apagam fogo, permitem que propriedades sejam conservadas, salvam vidas. Esses homens destemidos se doam, entregam-se a um ofício tão arriscado (suas vidas estão sempre correndo riscos.) quanto indispensável (sem eles, muitas vidas seriam tão breves!). Afinal, não fossem eles, quem se disporia a fazer o que eles fazem? Você, caro leitor? Eu, homem das letras? Certamente, não. Lamentavelmente, os homens do fogo também se encarregam de tarefas mais dolorosas, como resgatar os corpos dos que, por falta de cuidado, por ausência de habilidade na água ou por pura fatalidade, encontram a morte no fundo de um lago, de um rio ou do mar. Pobres homens de incumbências tão gratificantes, mas, às vezes, tão penosas. Pessoas como eles inspiram outras, servindo como exemplo de obstinação, de desprendimento, de amor à vida (principalmente à dos outros.). Pena que esses verdadeiros heróis não recebam da sociedade o reconhecimento que merecem. Você, por exemplo, já parou para pensar nas condições de trabalho de um combatente do fogo, nas dificuldades que ele tem no exercício de suas funções, no salário desencorajador que ele recebe no final de cada mês? Não? Eu já sabia. Por isso mesmo é impressionante o compromisso que tais profissionais firmam com a comunidade cuja vida protegem. Compromisso esse, aliás, que jamais deixam de cumprir com dedicação incomum.
    Do outro lado, estão os professores, aqueles que vivem de tentar acender o fogo. Não, é claro, o do tipo que destrói e mata, mas o da curiosidade, da vontade de ser melhor, de viver melhor. Esse é um tipo diferente de chama que pode ser encontrada apenas na tocha ardente e inexaurível do conhecimento. A propósito, nada pior do que a ignorância. Homens e mulheres que escolhem essa missão são capazes de salvar muita gente da morte em vida. Aquela, causada pela escuridão do não saber: não saber ler e escrever, não saber escolher, não saber reivindicar, não saber entender e se fazer entender. Você, caro leitor, se comprometeria com essa lida? Não? Eu entendo. Eu também, muitas vezes, me questiono sobre o que faço, sobre os resultados que obtenho, sobre as decepções que experimento. Contudo, no dia seguinte, volto à carga com força renovada. A verdade é que nós, no fundo, como os bombeiros, assumimos um compromisso que não pode ser quebrado. Esse mundo precisa cada vez mais dos dois. Infelizmente, nós (professores), como eles (bombeiros), temos as mesmas dificuldades. Mas não se preocupe: também não desistiremos por nada. Somos guiados por uma força maior do que qualquer adversidade da nossa profissão: a certeza de que, em cada vida que salvamos, viveremos alguns anos a mais e dela tiraremos energia para novas batalhas. Talvez nunca sejamos famosos (como eles também não são). Mas, com certeza, ajudaremos outros a alcançarem a fama, o prestígio, o respeito. Afinal, o nosso sucesso, de fato, nem é tão nosso: é muito mais daqueles com quem dividimos o pouco que aprendemos ao longo da vida. Até nisso somos como eles, que, logo após terem entrado em meio às chamas para salvar a vida de um estranho, voltam ao anonimato.
     Para todos nós, cidadãos comuns, ainda bem que eles existem. Para os que reconhecem o valor do conhecimento, é só chamar, que estaremos prontos para reparti-lo com quem o quiser.

Everton Falcão
Enviado por Everton Falcão em 13/09/2007
Código do texto: T650187
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Sobre o autor
Everton Falcão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 56 anos
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