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"É MOLE, MAS É MEU!"

Caros amigos do Recanto

Talvez, por ser psicóloga (ou talvez por ser assim, é que sou psicóloga), tenho a mania de observar o comportamento e as idiossincrasias das pessoas. Um dos lugares prediletos para isso, é o calçadão de Copacabana. Lá, sempre que vou fazer minhas caminhadas, me deparo com coisas e situações inusitadas.

Imaginem vocês, que domingo passado, por ter sido uma extensão de um ‘feriadão’, a praia estava lotada. Gente de dentro e de fora do Rio, a disputar cada centímetro das areias e do calçadão de Copa. Não gosto muito de ir a praia nesses dias, pois essa população parece extremamente excitada com o passeio até o mar (vêm em verdadeiras caravanas de ‘mercedões’) e, além da família inteira, ainda trazem o famoso ‘frango com farofa’ e o cachorro pra comer as sobras.

É claro que, olhando pelo ângulo da fraternidade, dá gosto de ver tantas caras felizes, tantas mães que largaram suas árduas atividades domésticas para se bronzearem com seus surrados maiôs antigos; tantos maridos que vieram tomar suas merecidas cervejinhas geladas (que eles próprios trazem em verdadeiros baús térmicos) depois de, as vezes, meses de trabalho escravo sem direito a descanso; tantas avós e avôs que expressam em seus sorrisos (com ou sem dentes) a esperança de que a felicidade ainda existe, e tantas crianças e jovens que encontram um espaço de liberdade entre a areia e o mar para brincarem, gritarem, correrem e se expandirem apoiados com a tolerância, o sorriso e a felicidade geral de suas famílias.

Olhando pelo lado da intolerância, egoísmo e comodismo (todos temos um pouco disso, né?), nesses momentos me pergunto: por que Copacabana? É uma praia de média (pra não dizer pequena) extensão – apenas 4 km – e não comporta tanta gente assim. Já não basta o que acontece no reveillon? São milhares de pessoas que acreditam que o Ano Novo só se comemora aqui. Além disso, a praia enche com toneladas de lixo, uma loucura! O povo ainda, infelizmente, não tem educação básica e noções de cidadania. Vem trazendo um monte de coisas que descartam nas areias da praia. Também não têm muita noção de limite de espaço, pois correm num minúsculo espaço, entre o aglomerado humano, a jogar bola, frescobol e areia uns nos outros. Fora aqueles que sentem um estranho prazer em se lambuzarem de óleo e rolarem pela areia até o mar. Parecem uns verdadeiros bifes humanos ‘a milanesa’. Acho que a prefeitura do Rio, aliada com a politicagem e a mídia, é responsável por este evento.

Olhando pelo lado do humor, vemos coisas interessantíssimas acontecendo nestes dias na praia de Copa. Vocês já notaram que a própria vida às vezes nos dá respostas humorísticas? Porém, é preciso que a gente esteja com os canais abertos para isto. Coisas do tipo, estar no trânsito, dirigindo num engarrafamento monstruoso, calor de 40º, com o ar condicionado escangalhado, as janelas fechadas para se defender de assaltos, e ser fechado por um fusquinha que te dá um susto e te tira da esportiva. Na hora de xingar o motorista, você lê uma mensagem escrita no pára-brisa traseiro do carro: ”Sorria, Jesus te Ama!”. Só rindo mesmo, caros leitores, pra não chorar, entendem? Ou estar na calçada esperando o sinal abrir pra atravessar, ao modo politicamente correto, na faixa de pedestre, com uma calça branquíssima que você comprou e, de repente, se ver envolvida por uma nuvem negra de fumaça que um caminhão de transporte, velho, caindo os pedaços, soltou pelo cano de escape enferrujado. Daí você lê na traseira do estropício: “Não me inveje. Trabalhe!”. Ninguém merece, caro leitor! Tem quer rir - muito mesmo - senão você chora

Desta vez, chamou-me a atenção, na praia de Copa uma situação de um lirismo prosaico e hilariante. Depois, de discutir com dois adolescentes que insistiam em jogar areia em meu biquíni (será que não gostaram do modelo?), desisti de tomar sol na praia e fui caminhar, um tanto mau-humorada, no calçadão. Fui remoendo minha raiva contra os dois animais, digo, garotos, e, em determinado momento, suspirei dizendo: “Haja paciência! A vida não é nada mole!”. Neste exato momento, amigos, deparei-me com um senhor, de uma ‘certa idade’ (ô palavrinha indefectível, não?), barrigudo, com cara de malvado e um ar de quem está meio de ‘saco cheio’ com a vida. Usava uma camiseta preta com enormes letras brancas numa frase que dizia: “É MOLE, MAS É MEU!”. Haja moral!

Amigos, no início, fiquei pasma e não soube se realmente havia entendido aquela mensagem. Parei a caminhada e olhei pra trás. O dono de tal frase havia parado também e me olhava, desta vez, com ar de ironia e desafio. Perguntou-me: “Qual é o problema, não gostou?”. Sorri e respondi ‘na lata’ (também sou boa nisso, leitores, dizem as más línguas que sou malcriada!): “Por um lado, gostei, pois me respondeu a uma questão existencial. Por outro, não, mas também o problema não é meu, e sim teu. Mas como parece que você já se assumiu, então, acho que não tem problema, né?”.

Não sei se ele gostou ou não do que eu disse, leitores amigos, só sei que eu continuei minha caminhada, agora de bom humor, e pensando que na vida tudo é muito relativo: às vezes o que parece duro, é mole de agüentar. D’outras, a moleza nem sempre é o que parece: é preciso ser muito 'macho' e forte pra suportar, e sem perder o humor, claro!
Marisa Queiroz
Enviado por Marisa Queiroz em 13/09/2007
Reeditado em 19/11/2007
Código do texto: T650592

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Sobre a autora
Marisa Queiroz
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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