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ANDARILHO

De repente bate uma tristeza infinita... Destas que não tem tempo e nem hora para ir embora, feito à chuva fina que cai lá fora.

A água corre nas veias da vida e deságua saloba no mar, fonte de alimento. Mas, também dos náufragos e dos solitários, feito Cristo na Cruz do Calvário.

A dor da solidão pela ausência de compreensão é barco à deriva no mar, com seu canto longínquo que só o veleiro consegue escutar. A voz do mar, dos violinos que tocam inquietos na alma, da luz que enaltece a noite com o farol da própria lua. E os mastros dos navios são sonhos andarilhos que abanam distantes e que nos fazem lutar, enquanto pedras e mares infinitos são encontrados no nosso caminho.

E quantas pedras na chuva fina que caí dos olhos dos descamisados e dos injustiçados... De tantas mães sem leite e nem mel e que fazem da labuta a sua própria poesia silenciosa. Sem calçado, nem teto, a morada do céu resplandece sob as vestes de Nossa Senhora que habita na fé de cada um de nós.

A tristeza é marca que registra o caminho da luta. O esquecimento da pátria desafia o lema da nossa bandeira que é de ordem e progresso e também do nosso hino... Mas, somos gigantes pela própria natureza. A força heróica que vem de um céu com mais estrelas e do mar que se reveste de poder a cada onda que espraia.

A tristeza, contudo, é irmã da esperança. A crença do pescador por melhores pescas e da criança que sintetiza o sol e o amanhã. O presente dos mais velhos, que com sabedoria e vivência de todas as estações, celebram a força da resistência, das geadas, das pedras, das chuvas finas e dos temporais que afetam lá fora e aqui dentro, mas que anunciam a bonança.

A tristeza invade o tempo e a cidade com suas brumas infinitas, mas a primavera se aproxima. A estação celebra a vida e a metamorfose da alma, pela flor que renasce, explode em cores e certifica que o inverno chegou ao fim.

O tempo cura todos os males, afasta todas as brumas e espelha o verde e amarelo de nossos pais. O céu sinaliza o tempo  de transformações, sob o crivo primaveril das azaléias e das hortênsias que logo virão.

E que com novas flores e frutos, novos ventos e versos, possamos olhar o outro sem a bruma da indiferença que nos separa, sem a chuva do inverno que nos amedronta e sem as pedras do caminho que nos fragiliza e nos torna mais egoístas.

O sol nasce para todos e é preciso que com as mãos no chão, removemos uns as pedras dos outros, plantemos uvas e sonhos e celebremos com vinho a força heróica de nossos ancestrais que nos torna homens e mulheres bravios.
                                                                   
pássaro poeta
Enviado por pássaro poeta em 13/09/2007
Código do texto: T651244

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Sobre o autor
pássaro poeta
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
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