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“Dos professores que tive ao professor que quero ser”

Bons e velhos tempos de guri. Era uma aventura pensar em sair de casa para ir a escola. Muito diferente do que é hoje. Sair de casa naquela época, para ir a um lugar desconhecido era mesmo uma aventura. O grupo de amigos era restrito, a colônia não era tão povoada, as casas eram distantes uma das outras.
Como será? O coração acelerava ante aos dias que antecediam o primeiro dia de aula. A pressão era tão grande quanto a vontade de estudar. A mãe não me levou na escola no primeiro dia de aula, ela trabalhava. Fui com a cara e a coragem. Ah! Levei um lápis, uma borracha e um caderno, os dois primeiros repassados por minha irmã mais velha. O que importava é que estaria num mundo novo.
Quem seria a professora? Geralmente vinha da cidade. A escola era quase centenária, mas o gostoso que ali meus pais estudaram. Ouvira inúmeras historias daquele lugar, que chegava a olhá-lo com fantasias. Todos os alunos no pátio da escola, uma inevitável correria. De longe avistamos a professora que chegava e que ficaria conosco o resto do ano.
A tia Ilda não só ficaria aquele primeiro ano como marcaria uma época. Alguns já a conheciam. E em volta dela pulavam. Eu fiquei de longe olhando. Entramos na sala. A sala que tinha visto só pela janela. Agora estava dentro. Os recortes, as colagens na parede e um globo.
A professora Ilda não era uma velha, pelo contrário, beirava seus trinta anos. Já tinha experiência o bastante pelos anos que lecionara. Ela começou com a chamada e entrega da “cartilha”. E disse que ali começaria um mundo novo. Simplório mais empolgante. Leu um poema, não lembro de quem era e muito menos do que falava, mas as palavras soaram como musica que flutuava no recinto. E assim a tia Ilda lecionava. Um ano inteiro de gramática e literatura. Literatura não como matéria, mas como item do dia a dia.
Tive sorte, meu primeiro ano me encantou. Na seqüência tive inúmeros professores, um deles também me cativou, foi o professor Ari. Com sua maquina de datilografar velha do exército, nos ensinou o “b a ba” (asdfg hjklç...), também nos incentivou a poupar. Trazia cofrinhos do Bradesco para que começássemos nossas economias. Era bom em matemática e sabia ensinar.
Esses tempos tão difíceis que floreio na lembrança, não me incomoda as manhãs gélidas que saiamos ainda pelo escuro, isto ajudou a se tornar mais persistente. É verdade que não tive só grandes mestres, passei por momentos escuros. Um desses momentos foi com a professora Dirlene, será que a posso chamar de professora? Dos seis meses que esteve na escola, compareceu menos que a metade. Quando vinha trazia o namorado. E se alguém desse um “píu”, a régua cantava na cabeça literalmente. Ficou grávida, acho que ali na escola mesmo, quando se prendia com o namorado na cozinha. Deixa pra lá.
O tempo foi passando e já no final do segundo grau, quando tudo era euforia para a formatura e decisões de qual curso fazer na faculdade, aparece um professor, que deveras foi um tutor. O professor Rios, aposentado da USP, lecionava economia. Era uma disciplina que a turma toda odiava. Ao contrário, comecei a conversar bastante com o professor Rios, este me deu um monte de lições que até hoje as exerço. “Capoeira, você quer ser grande, pense como os grandes, ande com os grandes, e assim chegará à grandeza, não do ter, mas do ser!”.
Já no curso superior, poucos se destacaram, acho que pela falta de estar junto mais tempo. Mas uma frase eu guardo de um dos meus professores de filosofia, o professor Keith Rodges. Ele sempre dizia que devíamos ser sempre homens de únicas palavras, ou seriamos somente um saco de batatas. Ou mesmo meu contemporâneo, o professor Sertek, que além de meu mestre, é meu amigo. Este tem influenciado muito minha carreira estudantil e os rumos que tenho tomado profissionalmente e academicamente.
A postura de cada um deles me impôs uma reunião de estilos que tento sintetizar num “mix” de atitudes a ser tomada no dia a dia e ainda no estilo de professor que quero ser.
Ser um professor no meu ponto de vista não é simplesmente dominar a disciplina que será exposta aos alunos numa sala de aula. Ser professor é influenciar apaixonadamente o aluno, fazê-lo entrar num mundo diferente, fazê-lo perceber as coisas de uma maneira diferente, fazê-lo te olhar e perceber que você como professor vive o que ensina de maneira diferente e que isso realmente faz a diferença.
Acredito que como professor, além do currículo normal da disciplina, enquanto durar o modelo taylorista/fordista poderia acrescentar vivências e experiências de vida, viajar um pouco mais por norte que não se vêm em salas normais de aulas.
Ser professor é como diz Paulo Freire, é ser em primeira instancia educador. Ser educador nos tempos de hoje requer perícia, paixão e acima de tudo dedicação. Dedicação em ensinar não só a disciplina, mas ensinar a viver, ensinar a viver como não se ensina na sala de aula, ensinar a ser em primeiro lugar, ensinar a respeitar, ensinar a ter limites, ensinar a ser nobres que há tempos temos esquecidos.
Benjamim Frannklin disse: “Ser humilde com os superiores é uma obrigação, com os colegas uma cortesia, com os inferiores é uma nobreza”. Ou mesmo no soneto de Mario Quintana: “Seu eu fosse um padre”.

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
- muito menos no Anjo Rebelado,
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
... a um belo poema - ainda que de Deus se aparte - um belo poema sempre leva a Deus!

Diria, eu quero ser o professor que além da disciplina leva o aluno a ficar mais perto de Deus por transmitir-lhe algo que transcende o ensino convencional, que o tornará mais homem, mais sábio e mais digno da vida que tem. Pois só assim poderá transformar o mundo em que vivemos.
14/09/2007
HerosH
Enviado por HerosH em 15/09/2007
Código do texto: T653007
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Sobre o autor
HerosH
Milan - Lombardy - Itália
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