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JANELAS

JANELAS

Entram no restaurante com os braços levemente entrelaçados, caminham entre as mesas sob a decoração rústica e folclórica, escolhem a mesa perto da janela. A mulher repousa dos olhos no companheiro, procura sua realidade no emoldurado cartão postal. O ambiente gauchesco, as costelas no fogo de chão, a mesa de saladas, os garçons de bombachas, as cabeças de boi... Tudo tão pitoresco e marcante.
O olhar do homem percorre as janelas. Aprofunda-se em motivações, sente acender o riso sobre algumas atitudes tão triviais nos espaços vazados. A luz do dia, a intensidade de algumas imagens, as cores fortalecidas nas molduras ocres, o vermelho do fast-food no estabelecimento ao lado, os cintilantes carros com crianças penduradas com seus lanches coloridos, os opacos carrinhos dos carregadores de papel...
“Preciso de janelas!”
O homem é surpreendido pela afirmação da mulher. Como janelas? Estão cercados por tantas paisagens, sob a janela para rua, sob a fresta de um almoço especial aberta na rotina de um dia útil, sob um olhar carinhoso...
“Preciso de janelas! Não posso mais... Janelas!”
O casal permanece em silêncio. A sirene de uma ambulância rasga a continuidade, o garçom se aproxima com a picanha mal passada, a criança da mesa ao lado satura sua paciência e caminha por entre as mesas, alguns carros buzinam, o celular de um freqüentador dispara uma música adaptada, outro garçom se aproxima com os corações...
“Como janelas? Estamos à janela!”
A mulher se deixa desenhar com linhas misteriosas. Seu olhar assume um tom diferente: profundo e refratário. Contraditório... Como são as tão cantadas e decantadas janelas da alma! O homem não consegue penetrar os misteriosos véus que cortinam as palavras, não pode compreender além dos primeiros significados.
“Janelas! Preciso de janelas! Sinto claustrofobia na morada de nosso cotidiano. Estamos presos às primitivas estruturas e não aventuramos olhar para as construções com tantas possibilidades de pavimentos mais modernos e seguros. Somos janelas abertas em empenas cegas. O mundo se abre em paisagens reproduzidas enquanto fantasiamos a claridade.”
O olhar do homem assume contornos distorcidos. Questiona-se sobre as palavras que acabou de ouvir. Sente culpa por uma probabilidade de loucura, compaixão pelas palavras desencontradas de sua companheira... Janelas, empenas cegas, pavimentos...
O que tanto arquiteta a alma feminina? Quais os pavimentos possíveis que sustentam tanta ambigüidade?
“Janelas! Janelas... Há quanto tempo não debruça sobre nossa intimidade e vê um novo horizonte? É sempre o mesmo! Estamos fadados a nos concretizar nas visões possíveis.”
Quanto tempo! O homem tenta se libertar de tantos enigmas. Gostaria de pular as janelas, atravessar os limiares, mas... Tanto tempo. Como não percebeu a chegada das possíveis instabilidades no horizonte da paisagem?
Novas porções são dispostas na mesa: banana frita e cebola à milanesa. A mulher, sem notar a presença do garçom, assume um tom desafiador e questiona.
“Abriremos novas janelas ou restaremos cerrados nas mofadas cortinas?”
O homem tenta compreender a metáfora.  Qual a palavra que faltou e deve ser escrita na relação? Eles se dão bem, vivem em harmonia – são amigos, são amantes... Vivem as ondulações de uma relação com a maré de respeito e amizade. O que falta?
A mulher percebe sua inquietação. Sua vida está monitorada nas emoções do outro. Compreende a necessidade de estabilizar suas inquietações. Não são metáforas, são janelas! No mundo de relacionamentos virtuais, viagra, encontros instantâneos em salas idealizadas, sexualidades potencializadas em monitores iluminados, manter uma relação sustentada em pequenas fugas para restaurantes regionais é estar fora da realidade, é cerrar os olhos para o mundo...
“Janelas! Precisamos de janelas!”
O homem desvia o olhar e prende a atenção no pequeno televisor perto do bar. Reconhece a apresentadora do telejornal da tarde pela cor dos cabelos e, com as imagens fragmentadas, imagina o que está acontecendo no mundo.
Janelas...

Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 14/03/2005
Código do texto: T6531
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 46 anos
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Helena Sut

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