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Selando destinos

"A maior ignorância é a que não sabe e crê saber,

 pois dá origem a todos os erros que cometemos
com nossa inteligência."

 Sócrates

 
 

Existe, na sociedade, uma quantidade considerável de peritos vulgares que emitem diagnósticos variados. São os chamados “achólogos”.

Apontam causas e soluções para os mais diversos problemas:

Complicações com o comportamento do menino da vizinha? Só pode ser culpa do pai que bebe. Aquele rapaz rouba a própria tia? Os amigos da escola que ensinaram. O marido da comadre está saindo com a funcionária do mercadinho? Ela que se insinua para todo mundo...

Qualquer “disfunção social” pode ser destrinchada de forma rápida e segura, porém não indolor - afinal, alguém ou algo sempre paga o pato.

Pior é que o culpado (geralmente único e ignorante do julgamento em questão) muitas vezes é o último em importância na gama dos fatores responsáveis pelos fenômenos estudados. Ou melhor, fenômenos fofocados.

Agora, pior que um achólogo destemido, é um profissional descabido.

Isso porque o achólogo tem, em sua defesa, a ignorância dos assuntos científicos.

Numa das minhas aulas de psicologia escolar, tive acesso a um triste laudo feito por uma psicóloga de um colégio de periferia.

Naílton – um menino de família simples, estudante do primeiro ano do ensino fundamental de uma escola pública campineira, estava, segundo a professora, com dificuldades para prestar atenção nas aulas e de realizar certas atividades. Era também muito retraído e ainda por cima chorava à toa. Por todos estes motivos foi encaminhado à sala da psicóloga escolar. Era mês de abril, portanto, inicio do ano letivo.

Chegando lá, após uma conversa inicial (relatada no tal laudo), a profissional da psique aplica no menino um teste psicométrico. No final, avalia as respostas, conta os pontos e sela o destino do menino, com as seguintes palavras:

“Naílton apresenta problemas de aprendizagem porque seu QI é abaixo da média - é uma criança carente e, segundo seus próprios relatos, tem um pai repressor e uma mãe ausente”.

A profissional foi implacável. Com um olhar clínico, avaliou apenas o menino, sem se dar conta de que ele estava inserido num contexto muito maior. Não conversou com os pais, não avaliou melhor a escola, a professora ou os outros alunos. Com a lente focada sob a criança, não se deu conta de que provavelmente aquele comportamento do menino poderia e deveria ser multifatorial.

Isso sem falar que em um teste psicométrico existem perguntas do tipo: “Assinale, dentre as figuras abaixo, qual é o violoncelo”. Santo Deus! Um menino de periferia tem a obrigação de saber a diferença entre um violoncelo, um violino, um violão, uma guitarra e uma viola?

Rosenthal já chamava a atenção para o fato de que “a predição feita por uma pessoa quanto ao comportamento de outra, de algum modo chega a realizar-se”.

Sinceramente, depois de ler aquele laudo, a única coisa que me passou na mente foi: “Oxalá esse menino não absorva tais palavras”.

Milhares de crianças passam por situações parecidas, no Brasil e no mundo.

Inúmeras pessoas entregam suas vidas ao conformismo do “eu não posso”, “eu não consigo” porque em algum momento uma pessoa dessas cruzou o seu caminho e profetizou seu futuro, como uma verdadeira pitonisa em contato direto com os deuses olímpicos.
 
Claro que, sem me permitir jogar o bebê no ralo, junto com toda a água da banheira, considero, obviamente, que existem profissionais maravilhosos, cujos diagnósticos são precisos e totalmente responsáveis, assim como existem pessoas com patologias instaladas, com comportamentos desviantes, que certamente necessitam de ajuda especial para conseguirem ter uma vida relativamente normal.

O problema está e sempre estará nos diagnósticos inapropriados, emitidos tanto por achólogos comuns como por profissionais incautos.

É preciso muito cuidado para não realizarmos julgamentos irresponsáveis, pelo mundo afora. Inclusive em nossa própria casa, com aqueles que convivemos.

Quando afirmamos que uma criança não consegue aprender, que um homem não terá forças para parar de beber, ou que uma mulher não tem estrutura emocional para constituir uma família, estamos selando destinos.

Porque todo aquele que julga sem propriedade e sabedoria, comete injustiça, e toda injustiça gera sofrimento.

E o outro terá de buscar forças em seu íntimo para desvencilhar-se das algemas que oprimem as atitudes e retirar de seus ombros o peso da profecia que amaldiçoa.

 
Claudia Gelernter


Claudia Gelernter
Enviado por Claudia Gelernter em 15/09/2007
Código do texto: T653406
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Sobre a autora
Claudia Gelernter
Vinhedo - São Paulo - Brasil, 49 anos
37 textos (18867 leituras)
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Claudia Gelernter