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Feridas ou moscas?

“Se cada um de nós consertar de dentro
 o que está desajustado, tudo por fora estará certo”.
André Luiz
 

 

Mesmo contrariada, desde moça precisei reconhecer que não tinha nascido com pernas tipo Claudia Raia – lisas e sem manchas.

Vez ou outra, veias salientes teimavam em aparecer.

Tanto que, logo aos 21 anos tive de me submeter a uma cirurgia vascular que acabou rendendo 46 pontos e dez dias de molho, na cama.

Mas como tudo nesta vida tem aspectos positivos, neste caso pude considerar ao menos dois: Poder ler muita coisa durante o tempo de convalescença e, obviamente, me ver livre daquele mapa hidrográfico epidérmico.

Naqueles dias consegui devorar dois livros inteiros. Um deles foi o Médico de Homens e de Almas, da Taylor Caldwell. Maravilhoso.

O outro era um estudo junguiano, baseado na mitologia grega.

Dentre os personagens mitológicos comentados naqueles escritos, existia um arquétipo muito interessante, chamado Quíron.

Chamam-lhe, também, de o Curador Ferido porque sofria de uma ferida incurável, adquirida numa rixa entre Centauros, onde Hércules esteve envolvido. Portanto, ele curava os outros, mas não podia curar-se a si mesmo.

Depois daquela leitura passei a tentar identificar as pessoas que carregavam este “Quiron” interior.

São aqueles indivíduos que apresentam receitas mirabolantes para todos os que estão à sua volta, que trazem na boca palavras poderosas, capazes de fazer diminuir as dores mais dilacerantes, mas que não conseguem curar as chagas que levam na própria alma.

Com o tempo percebi que existe um número considerável de 'Quírons' feridos, perambulando por aí.

Muitos anos atrás, conheci uma pessoa assim. Ela devia estar com uns quarenta anos, naquela época.

Silvia era a ponderação em pessoa.

Sempre paciente, vivia de bem com a vida, apesar da gastrite que a acompanhava, fazia muito tempo.

Certa vez, logo após ter ouvido minhas lamúrias intermináveis, percebi que ela chorava, discretamente.

Até pra chorar a Silvia era educada.

Tanto que demorei pra me dar conta do que estava acontecendo ali.

Depois de algum tempo, passou a explicar o motivo de suas lágrimas. Disse que ao me ouvir reclamando sobre o jeito austero do meu pai, acabou por lembrar-se de seu padrasto e de como tinha sido injusta com ele e com sua mãe, fazendo intrigas e exigindo da genitora o afastamento total do homem que amava.

Contou que em sua mocidade nunca aceitara que sua mãe, apesar de viúva, pudesse casar-se novamente. Tinha medo que seu pai fosse substituído.

E a resignada senhora, apesar do esforço de sua filha para tornar seus dias mais alegres, por muitos anos manteve o mesmo ar entristecido. Morreu sem nunca mais ter visto seu grande amor.

As últimas palavras da minha amiga vinham recheadas de muita emoção.

Como ainda doía aquela ferida!


Apesar do silêncio que se seguiu, como que pedindo o final do assunto, não consegui conter a curiosidade:

“Por que você não o procura, hoje? Poderia ele estar vivo, ainda?”

Limitou-se a balançar a cabeça, em negativa.

Nenhuma palavra.

Levantou-se, me deu um abraço e foi embora.


Ontem, no final da leitura do livro Libertação, de André Luiz, um pequeno trecho me fez repensar estas questões. Gúbio, o orientador de André, comenta que “(...) é melhor curarmos as feridas do que ficarmos espantando as moscas”.

Acho que a Silvia passou boa parte de sua vida espantando moscas.

Quando sua dor de estômago aumentava, os antiácidos entravam em ação.

Porém, o seu antigo comportamento tinha algo do mesmo veneno que atingiu Quíron – não permitia a cicatrização de sua ferida.
 
Quem sabe, se optasse por rever tais questões, perdoar-se e seguir em frente, de cara limpa...

Quem sabe...

Assim como ela, deparo-me, frequentemente, com muitas outras pessoas que vivem processo parecido. Têm respostas para todos os dramas da humanidade, entretanto acumulam em seus históricos de vida as moscas mais variadas: fobias, neuroses, doenças somatizadas.

Buscam no consultório médico o alívio farmacológico, sem se darem conta de que as feridas continuam lá, atraindo novos insetos.

Feridas morais. Feridas da alma.
 
Se eu pudesse voltar no tempo, creio que diria algumas coisas para a Silvia.

Ironicamente sou eu quem estou chegando aos quarenta anos e talvez por este motivo hoje em dia os lamentos são mais amenos e as palavras melhor empregadas.

Poderia apenas ler para ela, em voz alta, uma parte do poema de Catulo da Paixão Cearense, chamado "A dor e a Alegria" que diz o seguinte: "A dor é como um relâmpago, assusta a gente no escuro mas alumeia os caminhos".

Só não sei se conseguiria ajuda-la em alguma coisa.

Isso porque também aprendi, com o passar dos anos, uma outra realidade - a de que não basta conhecer as feridas, os defeitos que teimamos em carregar conosco. É preciso, também, querermos verdadeiramente a cura - a transformação redentora.

Ou seja, é preciso maturidade.

E enquanto esta fase não chega, o jeito é ir espantando as moscas.

 
Claudia Gelernter

Claudia Gelernter
Enviado por Claudia Gelernter em 15/09/2007
Código do texto: T653411
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Sobre a autora
Claudia Gelernter
Vinhedo - São Paulo - Brasil, 49 anos
37 textos (19181 leituras)
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Claudia Gelernter