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"VOCENHORA"

Um dia você sorriu me pedindo para não tratá-la assim. Senhora, não; “senhora está no céu”, e ponto final. Fiquei um tanto sem graça, pela força do hábito. Comecei a gaguejar, cada vez que lhe falava. Era dona, ou senhora, e parecia mesmo não ter jeito.
Lembro que ainda era bem menino, e olhava com fascínio e admiração a sua face nem tão marcada pelo tempo. Você insistiu, se indignou muitas vezes, embora de forma bem humorada, e conseguiu fazer com que eu mudasse o pronome de tratamento. Aprendi a falar você como aquela criança que aprende as primeiras falas e dana a repeti-las, como se fossem flocos de açúcar se derretendo na boca: Você... Você... Você...
Pareceu que a nova forma de tratamento iniciou uma nova fase de nosso relacionamento. Acabei escavando sentimentos que não queria descobrir no meu coração. De repente a amava, julgando ser também amado, e vendo se estreitar fisicamente a distância etária que nos punha razoavelmente longe um do outro.
Com a nova realidade, você acabou voltando a ser dona, se bem que do meu coração, do meu corpo e de minh´alma totalmente arriados pelo seu encanto. Voltou a ser senhora, com todas as letras, mas a senhora do meu reino afetivo, fazendo com que eu “comesse na sua mão”; digo; no seu corpo... Melhor ainda: O seu corpo, sem me entregar a su´alma como sobremesa do banquete no qual me regalei até acordar para a realidade de que não era amado.
Já sou senhor. “Seu”. Faz tempo não tenho notícias suas. Tive muitos amores, fui senhor de situações, em outras a realidade virou, mas nunca esqueci aquele laço, em ambos os sentidos: O de enlace – relação, mesmo –, e o de armadilha. Nos dois casos, com a doçura e ao mesmo tempo a rascância dos vinhos mais picantes, fazendo-me viver uma das melhores fases que lembro aos quase cinqüenta anos.
Não sei onde você anda... Ou a senhora, se é que hoje posso lhe chamar assim. Pelo visto, e pelo tempo, pode até ser que lhe agrade o termo senhora, por estar bem ajustado, enfim, à sua máxima de que “senhora está no céu”.

Demétrio Sena
Enviado por Demétrio Sena em 15/09/2007
Reeditado em 03/08/2009
Código do texto: T653921
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Demétrio Sena
Magé - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
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Demétrio Sena